Zero ideia de cidade

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Continuando à boleia e portanto começo por partilhar as suas intervenções:

Samuel Silva (https://www.facebook.com/samuelpsilva) trouxe recentemente para a praça pública a discussão sobre a destruição licenciada da perspectiva que a cidade tem há muitos anos daquilo que nos habituamos a conhecer como o Mosteiro de Santa Marinha da Costa. Com um interessante artigo que bebe na história da própria Cidade e que explica como a ideia de cidade que existia – e que persistiu no tempo – levou a que o desenvolvimento de uma certa parte da Cidade apresentasse determinado rumo e a razão porque nos proporcionaram um certo retrato na paisagem que a Cidade tem da Penha.

No seguimento da temática, num artigo intitulado “Já nem Santa Marinha nos vale!” (https://araduca.blogspot.com/2018/06/ja-nem-santa-marinha-nos-vale.html), António Amaro das Neves aprofunda a História do edifício num artigo de grande interesse que expõe a importância da ciência e arte de Fernando Távora, distinto arquitecto portuense cuja visão marcou o desenho da Guimarães que conhecemos, sublinhando a sua extrema preocupação com o equilíbrio entre o pré-existente e as necessidades contemporâneas num projecto que lhe valeu o Grande Prémio Nacional de Arquitectura.

E ainda Paulo Dumas, jornalista do Reflexo Digital, que procura explicar “Porque não há uma “ideia de cidade”” (https://reflexodigital.com/nao-ha-ideia-cidade/), trazendo para a discussão um prisma de confronto entre diferentes dicotomias que assentam como uma luva na discussão que se tem gerado – ideia de cidade vs ideia de território, planeamento vs ordenamento, rural vs urbano, técnico vs político, instrumentos vs estratégia.

Parece tornar-se evidente que há desde algum tempo a esta parte zero ideia de cidade.

Pode parecer plágio mas torna-se difícil encontrar melhor título.
Aceitar que o defeito nasce da inexistência de uma ideia de território, comporta uma dimensão temporal que assusta.

Pois os resultados – mais da sua existência que da inexistência – notam-se com o passar do tempo, sendo hoje muito claros como tenho vindo a defender. Nem visão, nem instrumentos, nem estratégia para um território onde caiba também a Cidade e o seu papel.

Partindo deste ponto não surpreenderão as recentes palavras do Presidente de Câmara sobre o assunto tendo dado como exemplo da “ideia de cidade” que defende a circunstância de em determinadas zonas da cidade ser permitida construção em altura embora a Autarquia, de mote próprio e no cumprimento dessa suposta ideia de cidade, a tenha evitado. Não percebi bem o objectivo porque esta tirada, num autêntico tiro pela culatra, só ajuda a perceber que há zero ideia de cidade em quem nos governa.

A CM Guimarães deve salvaguardar o património para lá da Cidade Histórica. Esse papel implica antecipar a utilização do espaço, discutir uma visão e o seu impacto na Cidade, definindo regras. Sendo que definir regras que salvaguardem a “ideia de cidade” é exactamente o contrario de abrir possibilidades para depois não as autorizar – veja-se precisamente aquilo que se fez no Centro Histórico.

No mesmo momento aproveitou para dar nota que a instalação do Tribunal de Varas Mistas afinal tem uma autêntica novela sobre os possíveis locais.
No epílogo dessa comunicação pública, o Presidente de Câmara explicou que afinal o terreno do Parque da Cidade surgiu como solução porque, no essencial, não há alternativa na tal zona circunscrita aos arredores do Largo da Mumadona que configuraria o tal “Campus da Justiça” (ou melhor, haver até havia mas isso é outra novela com o Ministério da Justiça) defendendo, de forma algo caricata, que essa mancha verde é praticamente a única “coisa” entre a Mumadona e o local proposto para a instalação do Tribunal… como se fosse logo ali ao lado, mesmo que a distância seja praticamente idêntica à sua actual localização em Creixomil.

Dizer isto ou outra coisa qualquer sem evidenciar um claro denominador comum que justificasse um tal conceito de “Campus de Justiça” incluído numa visão maior, só podia terminar assim, a justificar a crítica que tem sido feita: há zero ideia de cidade há demasiado tempo.

Esse tal “Campus de Justiça” deveria estar previsto e já com trabalho adiantado para a sua concretização no momento certo.

Assim não foi.

Mais: repare-se que atira o Parque da Cidade para o meio da questão sem abordar, por exemplo, a visão que defende para o Parque da Cidade – a sua missão na Cidade, o seu futuro – que começa a estar circunscrito por um anel de urbanização no seu perímetro a sul e também a este, talvez a única solução para o seu (eventual) crescimento.

Daquilo que se tem visto, a CM Guimarães privilegiou (privilegiará?) no âmbito da Capital Europeia Verde as questões de mobilidade, mormente a mobilidade eléctrica.

É para essa discussão sobre a mobilidade que aparenta pretender deixar a discussão sobre o ordenamento e o urbanismo – centrando precisamente na mobilidade.

Ora isto será uma inversão indesculpável pois o pensamento sobre o ordenamento e planeamento do território, o urbanismo, as escolhas presentes e as opções para Futuro é que devem influenciar, talvez condicionar, a mobilidade!

E nesse sentido, se a ciclovia for o exemplo da forma como se discute a cidade através da mobilidade… estamos conversados.

Escrito isto não espero que o Município potencie uma reflexão séria e profunda sobre o assunto.

Infelizmente.

Tal só acontecerá se o Presidente de Câmara no seu modo reactivo reagir à reflexão pública que se tem feito em torno da “ideia de cidade”.

Assim, seria muito bem recebida uma prova de vida da sociedade civil vimaranense, potenciando um debate abrangente e esclarecedor sobre as questões do urbanismo.

Para que possamos desenvolver, a partir da cidadania, não apenas uma mas várias ideias de cidade.

 

Alexandre Barros Cunha, 34 anos, engenheiro civil de formação abraçou a gestão de operações por vocação. Tendo liderado a JSD em Guimarães e no distrito, é hoje deputado municipal, vice-presidente do PSD Guimarães e membro do Conselho Nacional do PSD.