Reflexão sobre as condecorações do 24 de Junho

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Propus-me, neste espaço, não abordar temas que tivessem a ver com a política local. Tenho-o assumido, embora não prescinda do exercício de cidadania a que tenho direito, e que manterei enquanto entender que a lucidez, a minha, não me abandonou. Hoje, porém, porque o tema da igualdade de género sempre me mereceu uma atenção especial, e porque já lhe dediquei vários artigos de opinião, não posso calar a estupefação e a incredulidade que me assaltaram face à decisão (legítima) tomada pelo município para reconhecer o mérito de cidadãos, apenas homens, no próximo 24 de junho.

Nada me move contra os homens. A decisão revela, no entanto, um desencontro flagrante com os tempos em que vivemos no que toca à igualdade de género, sobretudo nos regimes democráticos, em que Portugal se inclui. Não ter isto em conta constitui um clamoroso erro político, para além de significar um grosseiro atropelo à democracia e aos valores e princípios que a enformam, bem como às práticas atuais que visam promover a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Nos dias que correm, menorizar o papel da mulher na sociedade constitui um atentado cívico e civilizacional imperdoável e uma ofensa aviltante a quem nos concebeu. Não reconhecer, mesmo que simbolicamente, o mérito das mulheres que, em todas as áreas da vida, têm reclamado por igualdade de direitos, na intervenção social, profissional e política, e todas as que não têm voz, mas têm igualmente direitos, é ignorar as conquistas conseguidas e um retrocesso civilizacional. As instituições democráticas têm de ser mais hoje do que ontem, e mais amanhã do que hoje, um local de fecundo e proactivo exercício de igualdade, que só os “velhos do Restelo” poderão negar.

O argumentário expendido para justificar a ausência de mulheres na proposta de deliberação camarária foi o que mais me chocou. Trata-se de um paupérrimo e bolorento arrazoado que tenta legitimar a decisão machista e retrógrada dos autores da proposta. Não quero, sequer, atentar à mediocridade dos textos que a fundamentam que, ou distorcem ou empobrecem, por ignorância, certamente, o currículo de um ou de outro homenageado. Mais do que isso, o que se torna penoso é a afronta que se faz a todas as mulheres vimaranenses quando, sem jeito nem argumentos sustentados, se pretende justificar o injustificável, que é a ausência de um nome feminino a medalhar. O raciocínio que se expende tentando justificar a suposta ausência de mulheres com mérito, pois é disso que se trata, é de má memória. Remete-nos para um período de trevas que o país viveu até à Revolução dos Cravos.

Quem entende o entaramelado do argumentário expendido para defender o indefensável? Por que se afronta com tanta ignorância e desfasamento temporal e concetual as capacidades das mulheres vimaranenses ou de outras que prestaram serviços a Guimarães? Não há um nome feminino que se destaque na gastronomia? Não existe uma virtuosa chefe de família que assumiu o papel de pai e de mãe e é um exemplo de tenacidade para todos nós? A indústria vimaranense, tantas vezes relevada como bastião empreendedor da cidade berço, não tem uma líder que mereça distinção? As mulheres da cultura que Guimarães tem, e são várias, não há uma, sequer, que passe no crivo da incultura que parece ínsita a quem trata destas matérias? E as jovens vimaranenses só merecerão ser destacadas nos prémios da Associação dos Velhos Nicolinos pela classificação global de 20 valores? E as mulheres promissoras no desporto também não são merecedoras de reconhecimento? Não acredito, porque sei, que no universo feminino tão resiliente e capaz não haja, num concelho que reverencia a Condessa Mumadona, mulheres de hoje que sejam merecedoras do nosso orgulho pelo serviço que prestam à comunidade.

Podia continuar com as interrogações e a chamar aqui capacidades que, já percebi, não são consideradas. E são ainda menos reconhecidas  por quem tem um tão gritante desfasamento da realidade em que vivemos e que quem decide ainda não interiorizou. Mais, a inabilidade é confrangedora e é aberrante a incapacidade política de perceber a importância de lutarmos pela igualdade de género em todas as frentes, mesmo na frente simbólica. A mulher vimaranense, só porque é dela que estamos a falar, não mereceu ontem, mas é imperdoável, hoje, ser ignorada por arcaicos conceitos, negando-lhe o estatuto que ela atingiu e que enriquece o nosso património humano e de cidadania!

Haja Deus!!!

Guimarães, 21 de junho de 2018

António Magalhães