Reserva de Valor, por João Pedro Pinto

Esta é a minha primeira crónica no Duas Caras – Gazeta Vimaranense e por isso vou utilizar este primeiro parágrafo para um pequeno enquadramento: Sou apaixonado por economia, sobretudo a microeconomia que está presente no dia-a-dia, na interação entre as pessoas e as empresas, gosto este reforçado pela minha atividade profissional, na área da consultoria financeira e fiscal. Dentro do tema e dada a sua abrangência, tentarei escrever sobre temas diversos e espero que possam ser interessantes para si.

Hoje abordarei um assunto que me toca especialmente, enquanto vimaranense.

Começando pelos factos: cerca de 10% dos bens exportados por Portugal são produtos têxteis, uma grande parte destes produzida no concelho de Guimarães, uma indústria que remonta aos finais do séc. XVIII e que, desde então, graças a empreendedores e empresários locais, constitui uma das mais bem-sucedidas indústrias em Portugal. Arrisco-me a dizer: é dos maiores casos de sucesso industrial a nível nacional, com elevado grau de especialização. Este é já um recurso “endógeno” da região e assim se deve manter. O que na minha ótica não inviabiliza, de todo, que o concelho capte investimento externo, deste e de outros setores, nacional ou internacional. Mas na realidade, não é isso que acontece.

Nos últimos anos, têm sido vários os projetos de investimentos direto estrangeiro (IDE) em Portugal, que em 2016 bateu o recorde dos últimos 20 anos. É curioso perceber que este incremento é não só quantitativo, como também qualitativo, uma vez que, para além de unidades de produção industrial, há um crescente investimento em centros tecnológicos e de I&D/conhecimento, alguns deles responsáveis pela inovação de grupos internacionais. Estes naturalmente procuram pessoal especializado, com salários pagos bem acima da média e que, por sua vez, criam não só emprego direto na região, como estimulam a sua economia local. O facto de ser investimento em unidades tecnológicas é também importante na retenção destas empresas em Portugal no longo prazo, uma vez que é bem mais difícil deslocalizar uma unidade assente em conhecimento em comparação com uma unidade de produção, por isso é também investimento mais sustentável.

Temos inúmeros exemplos em concelhos vizinhos, só para citar alguns: Bosch, Continental, BMW, Grupo ZF, Outsystems (nacional), entre muitos outros. Alguns dos nossos vizinhos, como é o caso de Braga, reinventaram-se. De uma cidade especializada na indústria da construção civil e seus produtos, que caiu com a crise, é agora uma cidade que conjuga vários setores, que tem captado grandes investimentos tecnológicos e assim praticamente duplicou (93%) as exportações entre 2013 e 2017, tendo ultrapassado Guimarães no top exportadores em volume de vendas.

Segundo dados da AICEP, em 2016 concretizaram-se 56 projetos de investimento direto estrangeiro (IDE) em Portugal, sendo que não há registo de qualquer um em Guimarães. Nem estrangeiro, nem nacional. Porquê?!

Um dos principais fatores críticos para a definição do local onde a empresa vai instalar a sua unidade é a mão de obra qualificada. E é aqui que o concelho desperdiça incompreensivelmente um dos seus maiores ativos: Universidade do Minho.

É consensual e está espelhado em vários rankings que a seguir a Lisboa e ao Porto, Guimarães tem a melhor escola de Engenharia do País, talvez a par com Aveiro. O que não tem é emprego para a maioria dos engenheiros que na cidade se formam e que posteriormente vão trabalhar para fora do concelho, que não lhes oferece uma indústria diversificada. Para além da Universidade, temos vários centros de I&D de referência nacional como por exemplo o PIEP (polímeros), CCG (tecnologias de informação), CVR (resíduos), 3B’s Research Group (Biomateriais, Biodegradáveis e Biomiméticos) que ganham projetos e prémios internacionais. Estes centros trabalham e desenvolvem projetos conjuntos com empresas de todo o território nacional e algumas internacionais. Hoje, já nem sequer ouço as queixas dos empresários, como há uns anos, do desalinhamento entre empresas e universidades/centros de transferência de conhecimento. É notório que tem sido feito esforço pelas duas partes para alinharem objetivos e colaborarem no desenvolvimento de novos produtos/processos e serviços, que gerem riqueza a longo prazo.

Então, qual a realidade atual do concelho?! Consegue, por via da Universidade do Minho, captar RH qualificados, que durante a sua formação (3-5 anos) vivem em Guimarães. Depois desperdiça este ativo, que acaba por ser transitório, uma vez que estas pessoas acabam por ir viver para outras cidades, onde há indústria diversificada e por isso emprego qualificado, desde a área eletrónica, à aeronáutica, alimentar, química, entre outras. Não só os que captam de outros locais para estudar na cidade, como os próprios vimaranenses.

Solução?! Aproveitar o facto de o País estar a bater recordes de captação de investimento externo e conseguir captar uma parte para a região. Como?! Sendo pró-ativos e muitas vezes criativos…

Senão vejamos e a título de exemplo, como é que o Fundão captou a tecnológica francesa Altran em plena crise (2013) que emprega atualmente na região cerca de 300 postos de trabalho qualificados? Um concelho que teoricamente teria tudo contra si na captação deste investimento, dado que se localiza bem longe das principais cidades (260kms de Lisboa e 259kms do Porto) dos aeroportos, das universidades, da mão de obra qualificada e de tudo aquilo que a centralidade oferece?! Com criatividade para atrair as empresas e os trabalhadores de outras regiões (não só de Portugal) e tornar a região distante dos grandes centros, mas apelativo para as empresas e para as pessoas se instalarem. O município criou a Academia de Código para reconversão de desempregados da região para a área tecnológica (taxa de empregabilidade superior a 95%), ensina programação nas escolhas do 1º ciclo do concelho (preparando assim o futuro), criou cursos de Português para ensinar os colaboradores “importados”, estabeleceu um programa que visou a reabilitação urbana e com rendas acessíveis para os colaboradores da empresa, acordos com creches para os filhos das famílias, entre várias outras medidas que permitiram revolucionar o concelho e combater a desertificação.

E Guimarães? É caso para dizer “em casa de ferreiro…”.

João Pedro Pinto (https://www.linkedin.com/in/joaopinto1/), 32 anos, licenciado em Ciências Económicas e Empresariais.