De portas abertas

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As coisas parecem estar a mudar no Castelo! Depois da época de “dar o salto” ter corrido mal (dizer que correu mal é ser simpática, mas vamos avançar, não serve de nada ficar sempre a falar no passado) e de um longo período a sentirmos que estávamos a ser afastados do nosso clube, penso que agora a Direção está realmente a levar a sério esta “coisa” da aproximação aos vitorianos.

Ser Vitoriano sempre foi estar extremamente envolvido com o clube. Os adeptos sempre foram um elemento fundamental na sua existência e sempre se orgulharam disso. Os vitorianos sempre tiveram um contacto bastante direto com os jogadores. Eles não eram apenas os “tipos” que corriam atrás da bola ao Domingo no estádio, os jogadores do Vitória eram pessoas pelas quais passávamos todos os dias, encontrávamos nos supermercados, nos cruzávamos no centro da cidade. Os jogadores do Vitória eram pessoas com quem convivíamos, eram parte da família vitoriana.

Noutros tempos, os treinos à porta aberta eram rituais sagrados de engajamento dos jogadores com os adeptos. Eram uma oportunidade de os fazermos sentir parte de tudo isto e ao mesmo tempo, eram uma oportunidade para que nós, adeptos, nos sentíssemos mais próximos dos jogadores e consequente do clube que tanto amamos.

Ainda me lembro dos tempos em que aproveitávamos um “feriado” (aulas a meio da manhã ou da tarde às quais os professores faltavam) para correr para o complexo e assistir aos treinos do Vitória. Ali, aqueles seres que no estádio eram apenas um número, ganhavam um rosto, um nome. Tornavam-se humanos. Ali era possível quebrar a barreira bancada/relvado e perceber que todos queríamos o mesmo: ganhar e fazer este clube crescer.

Ainda me lembro dos tempos em que se entrava no complexo do Vitória como em qualquer parte do Parque da Cidade. O complexo não era um sítio fechado, era aberto para a comunidade. Sentíamo-nos sempre bem-vindos (na nossa casa).

Os tempos mudaram, a concorrência desleal e a necessidade de manter a estratégia de jogo o mais secreta possível para superar o adversário no jogo seguinte obrigou a que os treinos passassem a ser à porta fechada.

Nós compreendemos os motivos, percebemos que era necessário ser feito, mas penso que à medida que aquelas árvores foram crescendo e aqueles portões se foram fechando, nós sentimos que nos estava a ser tirado um pouco de Vitória, um pouco da nossa identidade, um pouco de nós próprios.

Foi por isso que a experiência emocional de ver aqueles portões verdes a abrirem-se e de poder voltar a pisar as bancadas de pedra do complexo do Vitória (agora devo chamar-lhe Academia do Vitória, não é?) para ver a equipa sénior a treinar e a jogar neste fim de semana foi extraordinária. Foram muitos os adeptos que não quiseram perder a oportunidade de voltar a sentir aquela “alegria pura” de serem recebidos (e de receberem os Conquistadores) de portas abertas na sua “casa”.

Mais de 3 mil adeptos. Mais de 3 mil adeptos saíram de suas casas num sábado de manhã, não só para ver, mas para fazerem parte do primeiro jogo treino do Vitória.

Foi um momento de aproximação. Foi bom conhecer os novos rostos e receber de braços abertos aqueles que regressaram ao Castelo. Ficou no ar aquele sentimento de “ok, isto pode correr bem, isto vai correr bem” (foi agradável poder voltar a ser positiva em relação ao futuro do Vitória).

As contratações parecem acrescentar realmente algo à equipa. Mesmo com apenas uma semana de treinos, já foi possível ver na equipa do Vitória desta época coisas que na época passada raramente aconteciam, como uma lógica de jogo, planeamento, luta e ambição.

Ainda é muito cedo, o mercado ainda está aberto e o azar está sempre connosco, mas Luís Castro parece ter os elementos necessários (faltando apenas alguns jogadores para determinadas posições, mas que com certeza estão a caminho) para fazer deste ano, uma época memorável para o Vitória e para os vitorianos.

Ser vitoriano requer a experiência “viva” do futebol. Não se trata de ser um mero espectador – trata-se de ser um participante. A participação na vida do clube é, para nós adeptos, não só um direito como um dever de nos envolvermos emocionalmente no dia-a-dia da equipa, a fim de impactar positivamente no seu desempenho.

Nós somos o “décimo segundo jogador” – tão essenciais para o sucesso da equipa como os jogadores e a equipa técnica. Nós sentimos que são as ações realizadas por nós adeptos durante o jogo – os cânticos rituais, músicas, estandartes, etc. – que motivam a equipa, intimidam os jogadores adversários e talvez até influenciem as decisões dos árbitros.

Nós vamos aos jogos (e agora, com muito prazer, novamente aos treinos) para “ajudar o Vitória a vencer”, não apenas para observar o evento.

Estava mais do que na hora (e acredito verdadeiramente que é a isto que estamos a assistir neste momento) da Direção se aperceber que o ativo mais importante do Vitória é o relacionamento direto com seus adeptos apaixonados (com ênfase extra no “direto”). As equipas não podem depender dos media para lidar com o desenvolvimento de relacionamentos. O jogador favorito do adepto, o momento que ele o conseguiu conhecer na Academia do Vitória, uma simples mensagem de parabéns no seu aniversário, o olhar no rosto do seu filho no seu primeiro jogo, quando o Vitória respondeu (ou reagiu) ao seu comentário nas redes sociais… o valor deste capital emocional ao qual a direção do Vitória tem acesso direto é imensurável. E tem de ser bem aproveitado para fins comerciais/marketing, assim como bem nutrido para o bom curso da época e do futuro do clube.

A nova aposta no marketing, as mais recentes aquisições de jogadores e acima de tudo a abertura da Academia do Vitória (e consequentemente a maior abertura do clube para com os sócios) fazem-me acreditar verdadeiramente que a Direção percebeu que os relacionamentos estão no cerne do que as pessoas querem do dia-a-dia… especialmente quando o assunto é Vitória.

Não acho que voltaremos aos tempos em que havia livre trânsito no Complexo do Vitória (também houve um tempo em que podíamos acompanhar os nossos familiares e amigos quase até à porta de embarque no aeroporto mesmo sem bilhete, mas esses dias jamais voltarão e conseguimos compreender que tal não aconteça), mas seria bom que ações como esta se repetissem regularmente para que tanto os jogadores como adeptos possam voltar a sentir aquele elo de ligação que sempre existiu em Guimarães, que sempre nos tornou mais fortes e que nunca devia ter sido quebrado.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.