Militarizar

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No livro de leitura da terceira classe, editado em 1958, o ano da minha entrada na escola, tinha uma imagem forte e atractiva que, à época, fazia inveja aos alunos das outras classes.

Dos cinco meninos que apareciam na imagem, dois rapazes à esquerda e duas raparigas à direita, empunhando bandeirinhas da república e da monarquia, correndo alegremente para a escola, ladeavam um elemento que, empunhando com galhardia a bandeira da “mocidade”, marchava na mesma direcção.

O quinto elemento fez-me reflectir em como, os diversos regimes, especialmente ditaduras, procuravam formatar a mente dos seus cidadãos, a partir da tenra idade.

Em Portugal foi criada, através de decreto, a Mocidade Portuguesa que abrangia todos os rapazes, d’áquem e d’além mar.

Evidentemente que filho de trabalhador, mal vestido e quantas vezes descalço, era dispensado da militância naquela organização, a qual se cingia aos frequentadores dos colégios ou seja, aos filhos da elite social.

Entretanto, provavelmente numa acção de fachada, foi criada a Mocidade Portuguesa Feminina, de onde poderão ter saído as criadoras do Movimento Nacional Feminino que, durante a guerra colonial, tentava suavizar o sofrimento de quem «lutava e morria pela Pátria».

Por outro lado, no início do século vinte, foi criada uma organização que, apesar iniciada por um ex-militar e nada tendo a ver com militarismo, veio a tornar-se naquilo que se designava de “mocidade dos pobres”: O Escutismo!

Aquilo que se destinava a interessar os jovens pela vida ao ar livre, em detrimento dos centros urbanos, onde imperavam os “maus vícios”, passou a ser, principalmente durante o regime de Salazar, uma triste amostra da organização elitista.

Das roupas e calçado próprios de quem frequenta a floresta, passou-se ao sapato de verniz, à calça vincada e à camisa carregada de emblemas.

Marchas militarizadas, acompanhadas de fanfarras e empunhando bandeiras nacionais e de agrupamento, são o atractivo para os jovens se inscreverem, pondo de lado, sempre cada vez mais, os objectivos do fundador.

Muitos teimam em considerar o movimento, mais um meio de educação e haverá quem o faça com toda a boa vontade, no entanto, com os exemplos que vão aparecendo, não vai além de mais um modo de formatação, dos muito que proliferam no meio da sociedade.

A liberdade está a passar por aqui! Gritam uns quantos e nos quais me incluo, mas que passa lentamente, lá isso passa.

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.