O futebol é uma religião?

“O futebol não é um jogo ou um desporto, é uma religião

– Diego Maradona

Domingo de manhã, um dia de sol daqueles maravilhosos de verão (que teimavam em não chegar este ano). Milhares de pessoas reúnem-se num lugar sagrado. Trazem ao peito o símbolo da sua devoção. Elas cantam as suas canções e os seus hinos. Estandartes são desenrolados, bandeiras brancas e pretas voam na brisa. Podia estar a falar de uma peregrinação à Penha, mas aqui a adoração começa quando os jogadores passam o túnel e começam a correr para o relvado (o palco de todos os sonhos).
Nas palavras de Bill Shankly, “algumas pessoas acham que o futebol é uma questão de vida ou morte. Posso garantir que é muito mais sério do que isso”. O que pode ser mais sério que a vida e a morte?
A saudade aperta, a ansiedade de voltar a entrar no estádio do Rei é sempre elevada. É domingo de manhã, mas o sono e a preguiça de levantar da cama não foram impeditivos de acordar cedo. A família está reunida, o cachecol voltou a ver a luz do sol depois de quase dois meses fechado na gaveta (está demasiado calor para o usar, mas ele tem de estar presente), a camisola com o símbolo do Rei voltou a ser vestida. Os cartões estão na mão. Encontram-se os amigos de sempre, conhecem-se novos. A revista está feita. A luz verde nos torniquetes dá-nos autorização para poder voltar a pisar o estádio do Rei.
Não é a minha bancada, não é a minha cadeira, mas é a minha casa (a nossa casa), a minha família (a nossa família). Estamos de volta. Estamos em casa (ai como é bom este sentimento de estar em casa)! O cheiro da relva, o som ensurdecedor dos altifalantes, a multidão de preto e branco. Aqui é só Vitória. Aqui o Rei manda e os seus Conquistadores Sem Medo estão prestes a subir ao relvado pela primeira vez oficialmente na época 2018-19 (sim, eu sei que o jogo não é oficial, mas estamos em Guimarães: para nós não há época e pré-época, não há jogos oficiais e jogos amigáveis; há jogos do Vitória e nós vamos, simples assim).
Depois de mais de 2 meses sem entrar no D. Afonso Henriques, enquanto observo o aquecimento, dou por mim a pensar… será o futebol uma religião? (Ainda se lembram que o meu cérebro é um local muito estranho, certo? Estávamos a brincar que era hora de ir à missa e a ideia começou a ser esmiuçada na minha cabeça.)
Pode parecer estranho comparar a religião com o futebol (ou com qualquer outro desporto), mas a realidade é que antes das comunicações em massa, as cerimónias religiosas eram uma fonte de entretenimento para as pessoas (e o futebol é efetivamente uma fonte de entretenimento para as pessoas).
Enquanto olho ao meu redor para aquela bancada que se vai enchendo de vitorianos radiantes por voltarem a casa, apercebo-me que as semelhanças entre o futebol e a religião são bastantes.
Todas as religiões têm 3 coisas em comum: ir a lugares sagrados (os estádios, para nós o Estádio D. Afonso Henriques), manter as regras (todos os jogos têm regras) e observar os rituais sagrados (entrada em campo, celebração de golos, cachecóis ao alto aquando do “Sou Vitória).
A religião é uma expressão da necessidade humana primitiva de alcançar e tocar o divino. No futebol, os jogadores são quase que reverenciados como os deuses (neste momento em Guimarães existe mais uma veneração pelo clube e o símbolo do que por jogadores em particular, mas já houve jogadores que foram assim tratados – digam-me lá quem é que nos anos 80 não foi ao barbeiro e pediu um corte “à Cascavel”?), as bancadas são os bancos da igreja (até os bancos das equipas me fazem lembrar o espaço de vidro à frente do Santuário Fátima onde se celebram as missas campais) e o vocabulário associado a ambos é extremamente similar: fé, compromisso, devoção, dedicação, adoração, festa, sofrimento, ritual, lealdade, sacrifício, espírito, oração e celebração.
Acredito que o futebol se assemelha à religião na forma como ela dá às pessoas uma identidade coletiva e um propósito, e como ela é vivenciada através da interação com os outros.
O futebol dá-nos o ritual de uma reunião ao fim de semana, não se olvidando de nos fornecer o calendário anual de jejum e festa para moldarmos as nossas vidas como o ano da igreja costumava fazer (quem nunca esperou pelo calendário dos jogos do Vitória para planear os seus fins de semana ou para marcar férias que atire a primeira pedra).
O futebol herdou os costumes tribais da religião, dando aos seus seguidores algo a que pertencer, unindo nações e comunidades e unindo-as contra o “inimigo” – seja nas músicas de apoio durante o jogo ou na violência física (essa totalmente desnecessária).
Os adeptos (os vitorianos em particular) são altamente comprometidos com as suas equipas favoritas, de uma forma que dá significado ao seu dia a dia. Além disso, ver um jogo de futebol é uma experiência transformadora através da qual os adeptos escapam das suas vidas monótonas, assim como as experiências religiosas ajudam os fiéis a transcenderem da sua existência quotidiana.
Com mais de três mil milhões de seguidores no mundo, o futebol tem um número maior de seguidores do que o cristianismo (a maior religião do mundo, com 2,2 mil milhões de seguidores). O impacto do futebol na vida social das pessoas é irrefutável.
Respondendo à minha pergunta (e porque a bola já começou a rolar no relvado do D. Afonso Henriques e eu estou aqui para fazer parte deste ritual e não apenas observá-lo), sim o futebol é, cada vez mais uma religião e o vitorianismo é, com certeza, a melhor vertente desta religião.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.