Assim, as Festas mudaram.

As Festas Gualterianas pontuaram as memórias de muitas gerações de vimaranenses. Sendo certo que na cidade tudo acontece, as Festas foram ano após ano um motivo forte de grande afluência da população das zonas circundantes ao centro. Tenho ainda a imagem clara das expedições familiares que percorriam o caminho a pé, a partir das suas freguesias até ao centro, evitando assim a falta de estacionamento, com a cidade absolutamente fechada ao trânsito. Era, então, um momento raro, e por isso apreciado, em que se abriam os cordões à bolsa. Não se regateava o custo das fichas para os carrinhos, algumas ainda sobravam de edições anteriores, das guloseimas e de outros pechisbeques sem qualquer utilidade. Essas noites prometiam farturas e a maior das liberdades, com uma ponta de vertigem, para percorrer as ruas da cidade vazias de carros, no meio da multidão.

As promessas reiteradas de idas às festas, feitas às crianças, mantinham-se suspensas até ao último momento, não fossem os mais velhos arrependerem-se. De certa forma, era em benefícios dos mais jovens que os avós, tios e pais encontravam a motivação para os festejos. Hoje as Gualterianas ainda são as festas do povo e, por definição, das famílias.

Há uns anos para cá, a cidade ganhou outras festas grandes, com outros formatos. Dos esforços comerciais e da maior laicidade da sociedade, com o consequente abandono da religiosidade, resultaram configurações novas e substitutas, como a Feira Afonsina ou as festas brancas. Com a reorganização da cidade a partir da Capital Europeia da Cultura e o prémio da UNESCO, pareciam definir-se prioridades diferentes, sentindo-se um certo desinteresse político pela Festas Gualterianas. Talvez a abertura da cidade ao exterior, a sua maior integração na Europa, com a aposta na captação do turismo, tenha levado, por instantes, a pensar nisto tudo como se duma maçã fora dos parâmetros se tratasse e devesse ser rejeitada.

Assim, as Festas mudaram. As ruas do miolo da cidade não se preenchem mais de barraquinhas, quando tudo acontecia em duas praças do centro. E parece não haver mais motivos para percorrer a cidade, inebriados no meio da multidão. Talvez para alguns não haja, porque lá andaram noutros tempos, porque tenham o defeito de se lembrarem que enquanto o povo vai ao circo os césares recolhem-se nas suas villas ou porque preferem recolherem-se nas suas villas. Já para a criança a construir memórias, as luzes da cidade ainda são promessas de farturas.

Nossa Senhora da Soledade, cuja imagem está presente na igreja dos Santos Passos, há-de carregar, como lhe compete, as tristezas e as saudades, para nosso alívio. Enquanto isso, é de louvar a persistência e o trabalho dos obreiros da Marcha. Mesmo com as diversas mutações que sofreram, as Festas da Cidade integram o património identitário dos vimaranenses.

Num dos momentos de reflexão cívica em Guimarães, ingénua, mas genuína, surgiram algumas conclusões partilhadas. Fica aqui uma delas.

Assente no princípio do desenvolvimento sustentável, nenhum património comum, material ou imaterial poderá ser sacrificado ou intervencionado sem uma ponderação séria e escrutinada, por forma a não privar as novas gerações dos seus recursos, da sua história e memórias e, consequentemente, das suas oportunidades.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.