Mosteiro de Santa Marinha da Costa – imagem captada a partir da nova Rua Sul-Nascente (2017)

Prossegue esta semana a nova rubrica do Duas Caras. Se até agora publicamos pontos de vista colocados na perspetiva de quem escreve, chegou o tempo de privilegiar também a imagem. Sete fotógrafos convidados, semanalmente, vão dar o seu contributo a este espaço público através da sua lente. Ao domingo, Ricardo Costa Leite.

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A longa tradição de vários séculos de labor dedicados à dignificação das Artes e das Letras em Santa Marinha da Costa

O mosteiro de Santa Marinha da Costa foi fundado no séc. XII pela Rainha D. Mafalda e foi o centro de uma comunidade de frades Crúzios – Cónegos Regulares da Ordem de Santa Cruz – Regra de Santo Agostinho.
A partir de 1528 passa para a Ordem dos Jerónimos, e aí “ se encetou uma das mais interessantes experiências de renovação do ensino superior em Portugal, no período do Renascimento; D. JOÃO III decide mudar o Colégio de Estudos Regulares para o Convento da Costa, para nele poder estudar o Infante D. Duarte, seu filho natural, que lá se criava. A direcção coube a D. Diogo de Murça, regressado de Lovaina onde se doutorara em Teologia. Desde 1531 foram conferidos graus em Artes e Teologia e, por Alvará de 6 de Julho de 1541, D. João III concedeu autorização para que aos estudantes da Costa pudessem ser atribuídos os graus de licenciado, bacharel e doutor em Artes. Ali estudou D. António Prior do Crato.

D. Diogo de Murça transfere-se para Coimbra em 1544. Em 1553 veio a dar-se a incorporação do Colégio de S. Jerónimo na própria Universidade de Coimbra”. – (Real, Manuel Luís). Segundo António José Ferreira Caldas (1881- Guimarães apontamentos para a sua história), em 1727 e 1733 chegaram a funcionar, no próprio convento, novos cursos de Filosofia.
Com a instauração do Liberalismo a comunidade dos Jerónimos não sobreviveu à extinção das Ordens Religiosas e foi intimada a abandonar o Convento da Costa em Julho de 1834.

Com a instauração da República em Portugal os Jesuítas foram forçados ao exílio, de onde só regressaram por volta de 1931. Instalaram então em Guimarães, na quinta da Madroa o seu Seminário-Menor. Em 1932 mudaram-se para o Mosteiro de Santa Marinha da Costa, onde permaneceram até ao ano de 1951. Em Guimarães, reataram os estudos filosóficos «organizados em três anos e precedidos por um ano intensivo dedicado à matemática e ciências naturais» (P. J. Fragata s.j.). Foram aí professores os eminentes jesuítas P. Leo Mayer, suíço, P. Cassiano Abranches e P. Pacheco, sendo este, amigo de Leonardo Coimbra cuja presença era frequente em Santa Marinha da Costa. Os estudos filosóficos e o Seminário-Menor mantiveram-se na Costa até 1934 e 1935 respectivamente.

O P. Manuel Antunes s.j., que foi professor universitário, filósofo, classicista, crítico literário e pedagogo, frequentou o Seminário Menor da Companhia de Jesus sedeado em Guimarães.
O Noviciado da Companhia de Jesus em Portugal manteve-se em Guimarães até ao ano de 1951. Foi aqui, desde Abril de 1946, Mestre de Noviços o P. José Craveiro da Silva s.j. e aqui fez a sua profissão solene. A 7 de Julho de 1951 deflagrou um violento incêndio que reduziu a cinzas toda a parte do edifício onde se encontrava o noviciado. Nos finais de 1951 o noviciado dos Jesuítas transfere-se para a Casa da Torre, em Soutelo – Vila Verde, sendo que os estudos filosóficos já haviam sido transferidos para Braga em 1934.
Foi a longa tradição de vários séculos de labor dedicados à dignificação das Artes e das Letras em Santa Marinha da Costa – Guimarães, o que, segundo o P. J. Fragata s.j., “ serviu de ponto de referência ao nascimento da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa”. (Fragata s.j., J. , 1983 – ANTECEDENTES, EM GUIMARÃES, DA FACULDADE DE FILOSOFIA DA UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA – in ‘ Revista de Guimarães’ – Guimarães, 1983)
Desde 1985 o mosteiro de Santa Marinha da Costa é uma Pousada histórica de Portugal, de categoria superior.

Livros consultados:
– Fragata s.j., Júlio -1983 – Antecedentes, em Guimarães, da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa – in ‘Revista de Guimarães’
– Real, Manuel Luís – Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, n.º 130 – 1985.
– Craveiro s.j., José – 1993 – Editorial A.O

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