Quando me falam de Robles…

“Quando Pedro me fala de Paulo, fico a saber mais sobre Pedro do que de Paulo.”

A expressão associada à projeção, que não sei se estou a citar na perfeição, tem-me vindo à cabeça diariamente desde que ficou na ordem do dia a venda do prédio de que Ricardo Robles é proprietário.

O que é que já sei sobre Ricardo Robles? Que a sua principal bandeira, sufragada positivamente pelos lisboetas, não é coincidente na sua ação na vida privada. Falta de coerência, só. Não sendo pouco.

O que é que eu fiquei a saber mais? Muito sobre vários daqueles que escreveram sobre o tema. Da esquerda à direita.

Do que de um dos responsáveis máximos do PCP fiquei a saber, por exemplo, que a luta pelo lugar do principal partido à esquerda do PS justifica um ataque despudorado a todas as bandeiras do Bloco de Esquerda, confundindo-as com o tema.  Confundir a Eutanásia ou a despenalização das cannabis com um caso de falta de coerência de um responsável político não é sério.

Fiquei a saber também que toda a direita, fã de Cavaco Silva, que aconselhou a comprar ações de um banco em falência – e de que ele próprio estava a vender ações – Dias Loureiro ou Duarte Lima, quis aproveitar este caso para colar a falta de coerência a apenas um lado do espectro político. Se Robles faltou à coerência com as suas posições e as posições do seu Partido, isso apenas me diz algo sobre Robles, e nada sobre BE ou o que este partido defenda.

Da mesma forma que seria exagerado achar que toda a direita enferma dos mesmos males que as três personagens que citei.

Fiquei a saber também que há um alargo leque de imprensa nacional que não esconde com facilidade o seu posicionamento político. A reboque dos factos confirmados, surgiram dezenas de notícias falsas que tentavam cavalgar a onda para fazer deste um caso sobre um partido e sobre toda a esquerda. Não é. É sobre Ricardo Robles, eleito pelo BE para a Câmara de Lisboa.

Fiquei a saber, ou melhor confirmei, que Portugal tem (cada vez menos) escondido um arsenal de racistas, misóginos e homofóbicos, que à primeira fragilidade de quem defenda alguns destes direitos e algumas minorias, atacam não a ação de um homem, mas o homem em si e todo o projeto político do seu partido.

As confusões lamentáveis entre a bandeira da especulação imobiliária com o casamento homossexual, a igualdade de género ou a integração de povos migrantes sucederam-se em espaços de comentário hoje populados por gente assim.

Ricardo Robles procedeu mal e por isso se demitiu. O argumentário que esteve subjacente à sua eleição não perdeu e a especulação imobiliária é, de facto, um dos problemas com que os decisores políticos têm que lidar no imediato.

Fiquei a saber muito sobre Ricardo Robles, mas fiquei a saber muito mais sobre quem escreveu sobre ele.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.