A promessa

Bento tem nove anos e vive numa freguesia muito afastada da cidade, onde a camioneta só passa duas vezes por dia.

O pai trabalha de noite, numa fábrica têxtil e, todas as tardes, num supermercado até às oito da noite, altura em que janta e aproveita o pouco tempo que tem, para pôr a conversa em dia com a família, uma vez que, às nove e um quarto, tem de ir trabalhar, outra vez.

A mãe é costureira numa confecção e “pega” às oito e meia da manhã, depois de preparar o pequeno-almoço para ela e para o filho e partirem os dois para os respectivos transportes, para o trabalho e para a escola.

Chega a casa por volta das sete, sete e um quarto, carregada de compras, para ela e para a mãe que mora perto e aproveita os descontos, no supermercado onde trabalha o marido.
-Estou derreada! Todos os dias a mesma frase e Bento nunca se preocupou em saber o significado.

Certo dia, o petiz parou de comer e, de repente, lançou a pergunta:

-Ó pai, porque é que só eu me chamo Bento? Há Paulos, Manéis, Joões e só eu me chamo assim. Alguns até me chamam S. Bentinho!
-Deixa lá! A tua mãe é muito devota de S. Bento da Porta Aberta e vai lá todos os anos a pé, pagar uma promessa que fez quando tu nasceste e teimou que tinhas de te chamar Bento.
-E o pai não paga nenhuma promessa?
-Ó filho! Tomara eu dar conta do trabalho! A tua mãe fez a promessa e agora tem de cumprir, mas chega lá toda derreada.
-O que quer dizer derreada? A mãe diz isso todos os dias, quando chega do trabalho.
-Quer dizer muito cansada.
-Pudera! Intervinha a mãe. Todo o dia agarrada à máquina de costura e no fim, ainda tenho de fazer as compras, pôr a roupa a lavar e fazer de comer…
-Ó mulher, cada um faz o pode! Não vês as horas que trabalho!
-Pois! E chegamos ao fim do mês com a mesma miséria de sempre.
-Quando é que posso trabalhar? Também quero ganhar dinheiro, retomava Bento.
-Tu tens de estudar! Hei-de fazer tudo para que não venhas a ser um “carrejão” como nós.

Bento recordava toda esta situação, passada há mais de dez anos, olhando para a sala do bar, ainda vazia, onde fazia umas horas, depois de ter passado o dia como ajudante de distribuidor de fruta.

Ainda pensou estudar à noite, mas tinha comprado um “seminovo” e como o pai teve de deixar o trabalho no supermercado, sujeitou-se àquele “biscato” de três horas por noite, que passavam a sete ou oito, nos fins-de-semana.

Desta forma, Bento ajudava a mãe que continuava a pagar a promessa e a chegar a casa “derreada” e o pai que, trabalhando de noite, cada vez tinha mais dificuldade em dormir.

-Pode ser que as coisas melhorem, quando acabarmos de pagar o T2, concluía Bento ao ser chamado à realidade, pelos primeiros clientes da noite.