Hoje

O relógio marca as 7 horas, o termómetro ainda está abaixo dos 20 graus, os pássaros cantam (e algum galo também resolveu dar o ar da sua graça), o sino da igreja toca as 7 badaladas a um ritmo solene. O despertador não tocou, mas até a terra sabe o quão importante é o dia de hoje que tremeu alguns momentos depois.

Hoje podia ser um dia comum. Uma segunda como qualquer outra, mas para mim (e para milhares de vitorianos), hoje é dia de sonhar com o estádio do rival pintado de preto e branco. Dia de imaginar o sambodromo preparado para celebrar o campeão de Inverno (e acreditar fielmente que ele se chamará Vitória Sport Clube). Falar de Inverno com este calor parece quase tão distante como esse sonho, mas a Conquista dele começa hoje.

Hoje é dia de celebrar a Cidade Berço (será que ainda o é? Será que as festas Gualterianas ainda são as festas da cidade? Ou tornaram-se na ovelha negra da família que tem de estar presente nos convívios da família, mas que todos tentam mandar para o fundo da fotografia?). Hoje é dia da Marcha Gualteriana e é dia de voltar a casa, aos nossos lugares de sempre no Estádio do Rei a apoiar os Conquistadores.

O que se passa com as festas Gualterianas? O que se passa com esta Cidade tão cheia de orgulho de si mesma, cheia de pessoas bairristas que abrem a boca para falar do passado glorioso desta cidade, da importância da sua História e das suas tradições?

As tradições não são dadas como direitos de herança e é preciso muito trabalho para as obter. Não basta colocar iluminações na cidade (dessas não há qualquer tipo de queixa) e esperar que as festas fiquem lá bem longe onde não incomodam, onde não fazem barulho e onde não sujam. É preciso que a Cidade volte a celebrar as festas da Cidade e que não tenha vergonha da sua existência.

Perdoem-me o desabafo, mas (como a grande maioria dos vimaranenses) eu não compreendo o que se está a passar com as festas Gualterianas…

Hoje os carrinhos e as diversões (que estão longe, bem lá longe) ficarão em hiato enquanto no D. Afonso Henriques se luta por um lugar (que não será certamente ao sol) na fase de grupos da Taça da Liga.

O caminho será longo e não estará com certeza facilitado como na época passada, mas como aparentemente nós não gostamos de coisas fáceis isso parece estar a jogar a nosso favor.
Hoje é dia de receber os nossos irmãos mais novos. Dia de mais uma vez mostrar que o futebol é muito mais do que um jogo dentro das quatro linhas e que Fairplay é muito mais do que uma palavra chique estrangeira que se repete continuamente sem algum tipo de significado. Fairplay significa amizade e respeito e entre tondelenses e vitorianos isso nunca falta.

Hoje é dia de receber aqueles que estão longe e que passam o ano a sonhar com o momento em que podem voltar ao seu Berço e viver esta cidade e este clube intensamente. Hoje é dia de lhes permitir encher a mala de memórias e de momentos maravilhosos que tornem os longos meses de inverno longe mais suportáveis.

Hoje é dia de voltar a casa. Dia de vestir a t-shirt, pegar no cachecol de Verão, passar o Cartão de Identidade no torniquete, ver aquela luz verde a dar-nos o direito de entrar no Estádio do Rei e sentir aquele arrepio bom naquele segundo extraordinário em que após subir as escadas vislumbramos o interior do estádio.

Hoje é dia de voltar a sonhar. Hoje é dia de começar oficialmente a época 2018/19 e de nos darmos permissão para voltarmos a ser felizes com o Vitória!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.