Gualterianas: que futuro?

Nos últimos dias, tenho lido alguns contributos relativamente ao futuro das Festas Gualterianas. Uns mais construtivos que outros, mas quase todos essencialmente focados na reflexão sobre uma eventual transgressão da organização da festa perante as tradições.

Há argumentos que se repetem e passam todos, mais coisa menos coisa, por estes fatores: é necessário devolver as festas à Cidade, é urgente recuperar a tradição (sem o regresso da Tourada) e os obreiros da Marcha merecem o nosso respeito e consideração.

Infelizmente, creio que os dois primeiros argumentos são transportados demasiadas vezes de forma vazia, excessivamente dramática, sem objetividade nos factos que o sustentam, e por vezes sem conhecimento de causa.

Há ainda uma ideia que há, da parte da organização “mais municipal”, alguma vergonha nas tradições mais profundas e nas expressões mais populares da festa. Umas Festas que têm cantares ao desafio na Alameda, Desfiles de Charretes no Toural, Corridas de Cavalos, Feiras de Gado junto ao Castelo, Bombos e Fanfarras todos os dias, têm vergonha de quê?

Era por isso importante concretizar: além da localização dos “carrinhos de choque” e dos “vendedores ambulantes” o que afastou as festas da cidade? Que elementos de tradição não são cumpridos e por que motivo?

Há, contudo, de facto, muitas reflexões a fazer sobre as Festas Gualterianas. Desde logo a reflexão sobre o que está bem, que todos fugimos sempre de a fazer.

A dispersão conseguida das festas, mantendo uma área útil entre as Hortas e a Plataforma das Artes, sem descurar o Centro Histórico, de atividade permanente durante toda a semana, para os mais diversos públicos, parece-me ser o maior mérito. Bastaria uma volta no último fim-de-semana para perceber que todas elas têm público.

Esse percurso lógico foi, este ano, também acompanhado de iluminação correspondente, criando esse trajeto evidente a quem se desloca ao centro da cidade.

Ainda relativamente à Marcha Gualteriana, importa, de facto, destacar o trabalho dos obreiros, desejando também que a sua construção possa ser cada vez mais participada e rejuvenescida, para que o trabalho abnegado ali desenvolvido não se perca com o desaparecimento dos elementos mais históricos.

Os números vivos da Marcha tiveram também um acréscimo de participação das associações locais, que importa manter, cuidar e reforçar em futuras edições.

O facto de grande parte das festas ser concretizada por uma equipa imensa em número, e quantidade de trabalho, da Cooperativa Oficina, ajuda também a desmistificar alguns preconceitos sobre uma estrutura que preserva parte da sua missão original ao cuidar das tradições.

Pegando nestes aspetos positivos, vou ficando cada vez mais convencido que toda a discussão se centra “apenas” no afastamento físico das diversões e dos vendedores ambulantes. Se me parece que para as tradicionais “barraquinhas” há solução mais aproximada do dia-a-dia do centro da cidade, para as (agora) dezenas de diversões parece-me mais complexo. Os espaços que outrora ocuparam fizeram-se pequenos ou inexistentes, face ao crescimento da oferta que aquele espaço hoje possui.

Porque este é apenas um contributo para uma reflexão que não se quer que fine por tempo de festas, termino com uma questão extra: a que públicos não respondem as Festas Gualterianas?

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.