Favores

Finalmente, coincidindo com a entrada de Agosto, chegou o verão! Só não precisava de exagerar, com temperaturas a ultrapassar os quarenta graus, pondo em risco a saúde dos mais frágeis.

Terminado mais um ano legislativo, fica-nos a sensação de que muito mais poderia ter sido feito.

A expectativa de que o PS poderia, finalmente, tirar o socialismo da gaveta, saiu defraudada e por várias vezes, com colagens à direita que indignaram vários sectores do próprio partido.

Sem querer fazer uma exaustiva análise, ao período legislativo, gostaria de realçar duas propostas, apresentadas por Bloco de Esquerda e PAN que, para espanto dos portugueses, foram chumbadas pela ala conservadora do parlamento, com a conivência do partido que quer continuar a chamar-se socialista.

A primeira procurava dar prioridade aos inquilinos, na eventualidade de venda da casa onde habitavam. Esta medida iria salvaguardar a habitação de muitas famílias que, em muitos casos, tinham gerações de história, em convivência comunitária.

O parlamento não entendeu assim, fazendo ouvidos de mercador, aos argumentos de quem queria defender o direito à habitação, a milhares de portugueses, preferindo ceder aos especuladores imobiliários e à frieza dos cifrões.

A segunda proposta dizia respeito ao mau trato de animais, nomeadamente nas touradas e outros espectáculos.

Nesta área, o Bloco de Esquerda ficou aquém daquilo que muitos portugueses esperavam, não tomando uma posição firme, a favor da erradicação, pura e dura, contra todo o tipo de tortura animal.

Dizer que mais vale um pequeno passo de cada vez, vai contra a génese do próprio partido.

A condenação destas práticas bárbaras foi votada e aprovada em convenção, pelo que se esperava uma posição clara e firme, aquando da apresentação daquelas propostas.

Os espectáculos degradantes, com predominância nas touradas, continua a ser exibido por esse país fora e o último exemplo veio da Póvoa de Varzim, apesar de a respectiva Assembleia Municipal ter decretado o fim daquela execrável “profissão”.

Inacreditável que, em pleno século XXI, ainda haja quem considere aquela abominável prática, um acto cultural.

Será coincidência mas, se verificarmos bem, a prática da tortura sobre os touros, acontece em regiões que, ao longo dos séculos, estiveram e continuam a estar, sob forte influência da igreja católica.

Parabéns à Póvoa de Varzim e a Viana do Castelo pela coragem de, a exemplo de Guimarães e muitas Assembleias municipais e regionais, abolirem uma tradição criminosa, ao contrário da Assembleia da República, que não teve a mesma coragem e se colocou ao lado dos torturadores.

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.