Reflexão, imitação e experiência

“Há três métodos para ganhar sabedoria: primeiro, por reflexão, que é o mais nobre; segundo, por imitação, que é o mais fácil; e terceiro, por experiência, que é o mais amargo”.

– Confúcio

A época 2018/19 está oficialmente aberta e a primeira semana veio com desafios a triplicar.

3 jogos, 3 competições, 3 oportunidades de ganhar sabedoria. O mesmo resultado.

Reflexão

Segunda foi dia de voltar a casa. Dia de sonhar com a conquista da Taça da Liga na casa dos nossos maiores rivais e dia de lhe dizer prematuramente adeus.

Foi um jogo com muito domínio de bola por parte do Vitória, mas com nenhuma eficácia por parte do exército do Rei.

Lá diz o ditado, “quem não marca, sofre”. E se há coisa que não faltou naquele jogo foi sofrimento.

Do jogo da Taça da Liga fica a necessidade urgente de reflexão sobre as substituições realizadas, a falta de um ponta de lança que consiga finalizar as jogadas que foram tão bem realizadas e a necessidade de Miguel Silva recuperar a confiança que ao longo dos tempos veio a perder.

Imitação

O primeiro jogo da época veio acompanhado de uma experiência totalmente nova para mim… Fui infiltrada.

Na sexta tive a oportunidade de ver o jogo do Vitória pelo olhar do seu adversário.

Cada vez mais, eu tenho a sensação de que os jogos de futebol não são feitos para os adeptos no estádio, mas sim para serem visualizados na televisão.

Já nem vou falar dos horários dos jogos e da mais recente obrigatoriedade de todas as equipas da primeira liga jogarem 3 jogos à sexta e à segunda ao longo do campeonato (vá lá que já fazemos 2 em Agosto quando as noites são mais longas e a maioria das pessoas está de férias), mas o facto de em alguns dos estádios os adeptos visitantes serem estrategicamente colocados em lugares que ficam para lá da estratosfera é no mínimo irritante.

Honestamente eu não estava com vontade de ir ver formigas a jogar em vez de jogadores de futebol portanto depois de muito ponderar resolvi aceitar o convite de ir ver o jogo para o meio da claque adversária.

Foi uma experiência sui generis. Estava na companhia de algumas das pessoas que mais adoro neste mundo (com as quais não partilho de todo as preferências clubistas) e resolvi aproveitar a experiência ao máximo.

Chegamos à Luz extremamente cedo e a praça ao redor do estádio estava completamente cheia. Se há coisa que devemos aprender pela imitação é a necessidade de dinamizar a Praça 26 de Maio em dias de jogo. Sempre achei que esta era subaproveitada e ao ver o espaço ao redor do estádio da Luz cheio de atividades, zonas para comer e várias barracas de merchandising, percebi que efectivamente é algo no qual devíamos apostar.

Estava com receio do jogo no interior do estádio. A ideia de estar a ver o Vitória sem o apoiar parecia-me de loucos e a premissa de não verbalizar os meus pensamentos sobre o jogo parecia uma espécie de sentença penal, mas a realidade é que uma vez lá dentro nada disso me afetou. Comentei o jogo normalmente, os golos foram celebrados (não com a mesma intensidade que seriam se estivesse no meio dos vitorianos, mas foram) e o clima na bancada do adversário foi simpático, devo admitir.

Na primeira parte não houve Vitória em campo. Tivemos oportunidade de marcar primeiro, mas o poste recusou essa oportunidade ao Tallo e o Benfica acabou por dominar o jogo. O estádio da Luz estava em festa, os benfiquistas cantavam, faziam ondas e lá em cima, longe bem lá longe, onde “toda a beleza do mundo se esconde” havia um grupo de pessoas incansáveis que fez mais de 600kms numa sexta-feira para apoiar o clube das suas vidas. Conseguia perceber os seus movimentos, não os ouvia, mas sabia que cantavam sem parar. Sabia que tudo faziam para que mesmo lá de longe o seu apoio chegasse cá baixo, chegasse ao exército do Rei e o conduzia se para a Vitória.

Parecia quase impossível que isso acontecesse, que o som de mil se elevasse ao de cinquenta mil. Inicialmente pensei que era o meu cérebro a pegar-me partidas, que o meu desejo de os ouvir se tornava realidade apenas na minha mente. O vento trouxe consigo sons familiares no meio dos cânticos irreconhecíveis que as pessoas à minha volta enunciavam. Algo soava familiar.

“É Vitória. É mesmo Vitória que estou a ouvir”. Não se referiam ao treinador ou à águia, mas mesmo à equipa. Não era mesmo brincadeira da minha cabeça. Aquela gente que estava longe, lá longe conseguiu contornar todas as leis da lógica e fazer-se ouvir bem cá em baixo. Não serviu de nada mandá-los para a estratosfera, colocá-los numa jaula e tentar impedi-los de fazer aquilo que fazem como ninguém: apoiar o clube da sua terra.

Primeiro eram apenas pequenos segundos de felicidade sonora que apareciam de surpresa e me faziam sorrir mesmo com o Vitória a perder, mas “apoia o clube da tua cidade” conseguiu romper todas as barreiras e 50 mil benfiquistas ficaram em silêncio a ouvir a beleza do nosso amor.

Saí da Luz com a ideia de que podíamos ter vencido. Na segunda parte, tal como os Conquistadores na bancada, também os Conquistadores no relvado conseguiram quebrar a barreira que havia sido criada e mostrar a qualidade que existe no nosso plantel. A mudança de estratégia foi fundamental para a quase reviravolta do marcador. Pecou por tardia. Não serviu para vencer aquele jogo, mas espero que sirva de lição para o próximo.

Experiência

Domingo foi dia de estreia da equipa B, mais do que isso, domingo foi dia do nosso eterno capitão (aquele que a 26 de Maio pegou naquela tão deseja Taça) se estrear como treinador principal de uma equipa profissional do Vitória.

Esta é a sua casa e aquela braçadeira de treinador foi feita para ele. Nascido e formado em Guimarães, o Alex atingiu os mais elevados patamares do futebol nacional e europeu como jogador e é aqui que está a dar os primeiros paços de uma carreira de treinador que parece ser igualmente promissora.

Ainda tem muito para aprender, o caminho pela frente vai ser árduo, mas a sua experiência como jogador e como Vitoriano permitem-lhe saber como ninguém a relevância da formação no clube.

3 jogos. 3 competições. 3 lições.

Espero que sejamos capazes de ganhar sabedoria com as nossas falhas desta semana e que a época 2018/19 seja efectivamente a época em que votamos a ser felizes com o Vitória.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.