Póvoa!

Depois de muitos anos, decidimos passar um dia inteiro, na mítica praia da Póvoa de Varzim, onde muitas recordações de menino estão enterradas na areia.

Partimos a meio da manhã e, com a ajuda do milagroso “chip”, conseguimos chegar em trinta minutos, lembrando as intermináveis duas horas que a camioneta fazia nos anos sessenta.

Sabendo de antemão que achar um sítio para estacionar seria tarefa quase impossível, decidimos meter a viatura num dos parques baratos que existem à entrada da cidade, mesmo sabendo que tínhamos de atravessar as ruas sujas e malcheirosas de uma cidade que com pouco mais se preocupa do que com a marginal.

Finalmente, chegados à rua principal, seguimos as intermináveis filas de veraneantes que a atravessavam, a caminho da praia, pondo em franja os nervos dos automobilistas que teimavam em procurar um lugar, o mais perto possível do mar.

Com o calor a apertar e na ausência da tradicional nortada, parámos no Guarda-Sol, o café de todas as classes e de onde as tias e tios de Guimarães, Famalicão e S. Tirso, vão sendo afastados pela invasão dos trabalhadores em férias e dos novos e velhos “avecs” de segunda e terceira geração.

Mantendo uma parte da água das pedras no copo, fomos fazendo sala até partirmos a caminho do emblemático “Costa”, um restaurante que se transferiu da praça onde paravam as camionetas, para a nova marginal.

Sala e esplanada superlotada, cerca de vinte pessoas em pé esperando mesa, sob o olhar sorridente de quem já apreciava o tão desejado cozido à portuguesa, foi-nos retirando força para conter uma “raiva”, cada vez menos disfarçada.

Finalmente, depois de termos passado a outros os nossos desesperos e já perto das três da tarde, fomos ao carro buscar as toalhas, a manta, o “pára-vento”, os guarda-sóis para, encontrada a nesga de areia, demarcarmos o território, onde iríamos passar as próximas três/quatro horas.

Caminhar na areia a queimar e meter os pés na água gelada, obriga-nos a ficar quietos, desejar que chegue a unanimidade para levar as tralhas ao carro e dirigirmo-nos ao barracão onde se organizava o festival da sardinha.

Entre o pré-pagamento e a chegada à mesa com as sardinhas e as bebidas, passou-se uma hora e vinte e, já muito depois das dez, saímos para o ar livre, respirámos a intensa maresia e dispusemo-nos a desfrutar o passeio, antes partimos para casa.

Na praça onde ainda mora o “Cego do Maio”, não cabia um alfinete. Olhamos para a travessa que liga à famosa rua da Junqueira e só se viam cabeças.

Alguém sugeriu que fossemos pelo inevitável Passeio Alegre que, para tristeza geral, estava à pinha, com cruzamentos, encontrões a todo o tipo de “passeantes”, desde crianças a correr, cãezinhos pela trela que se metiam pelas pernas de quem passava, obrigando a um contínuo desculpe, em resposta a impropérios mal contidos.

Finalmente, depois de um dia infernal, ouviu-se as tão desejadas palavras: Vamos embora!

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.