A noite em que a Paixão foi mais forte do que a Corrupção

“Contos de fada são mais do que verdade; não porque nos dizem que os dragões existem, mas porque nos dizem que os dragões podem ser derrotados.”

– Neil Gaiman, Coroline

De cortar a respiração, de saltar da cadeira, cheia de intriga, drama, superação, luta e garra. Com alguns momentos de comédia e uma gigante dose de paixão, a noite de sábado à noite teve um enredo quase ao nível de um sonho de uma noite de verão que nem Shakespeare seria capaz de inventar.

A noite em que o exército do Rei derrotou finalmente (22 anos depois) o Dragão no seu ninho foi uma noite épica, daquelas que iremos contar e recontar pelos anos que se seguem.

Uma luta entre gigantes (mesmo que um deles tenha estado um pouco adormecido nos últimos anos, não deixa de ser gigante) que jogaram futebol ao mais elevado nível, que lutaram até ao último segundo. Uma luta vibrante, com direito a reviravolta no marcador e golos defendidos nos últimos segundos de jogo. Uma história cheia de heróis, vilões e superação. Uma noite em que a Paixão foi capaz de vencer aquele que é o maior problema do futebol mundial: a corrupção.

Penso que daqui a uns tempos estaremos honestamente a “agradecer” a Veríssimo por esta noite e inclusive pelo(s) penalti(s) não assinalado(s) e pelo golo indevidamente validado. Eles foram o impulso extra que a equipa do Vitória precisava para se tornar no exército do Rei. O Vitória já tinha bons reforços que vieram acrescentar valor à equipa, já tinha uma equipa organizada (e que sabia construir jogadas, apesar de ter grande dificuldade em finaliza-las), já tinha um treinador com um plano de jogo, já tinha o apoio incondicional dos seus adeptos, mas estava a faltar-lhe aquele impulso extra para se tornar no exército do Rei Sem Medo, capaz de entrar em campo com toda a garra e inteligência necessárias superar os seus medos, finalizar as jogadas e vencer jogos. Isso aconteceu no sábado à noite no Estádio do Dragão.

Mais uma vez, como tantas outras, o destino estava a zombar aos vitorianos. Por uma estranha ironia, a dois dias do marco de uma década do golo não validado que nos roubava o sonho, o Vitória via-se em desvantagem no Dragão devido a um golo indevidamente validado em fora de jogo. Parecia ser uma noite como muitas outras. Uma noite em que sairíamos do Dragão apenas com a vitória moral de termos jogado bem.

Perante tamanha corrupção, a equipa do Vitória soube reerguer-se e mostrar do que era feito o exército do Rei. Não há nada que una mais os vitorianos do que o sentimento de injustiça, mas no sábado, algo de mágico aconteceu naquele campo de futebol.

O destino parecia traçado, a injustiça do futebol parecia dominar o jogo, mas por alguma espécie de justiça divina, naquela noite os Deuses do futebol não estavam a dormir e os jogadores do Vitória regressaram do balneário com uma espécie de força sobrenatural que os fez vencer não apenas numa, mas nas duas frentes em que tinham de lutar, dando, mais uma vez razão à expressão de que os vimaranenses têm Duas Caras (não porque serem falsos, mas porque nunca fugirão a uma luta, mesmo que estejam em desvantagem e se vejam obrigados a lutar em duas frentes simultaneamente).

“Eles sabiam que naquele ninho de Dragões existia uma masmorra cheia de grandes, feios e sujos gigantes. Alguns deles tinham 3 cabeças, alguns deles tinham 12. Como poderiam começar a combater os gigantes? Eles podiam comê-los. Mas antes de saírem do túnel para os combater era necessário formar um exército. Luís Castro fez questão de dar a cada um dos Conquistadores uma espada afiada (que ele sabia que não quebraria). Armados e cheios de garra, os Conquistadores saíram para o ninho dos Dragões, preparados para lutar uma luta que já sabiam que não iria ser justa e cujo principal desafio não seria derrotar dragões, mas os senhores do futuro que se escondiam por detrás dos ecrãs”.

Não demorará muito tempo até que esta noite de verão de sonho se torne num conto de fadas ouvido em todos os lares vitorianos ao anoitecer enquanto os pais embalam as próximas gerações de vitorianos.

Na noite de sábado, digna de um conto de fadas, entramos no Estádio do Dragão com uma equipa de futebol desnorteada e saímos de lá com uma equipa com a mentalidade dos campeões, dignos de voltarem a ser apelidados de “herdeiros do Rei”. A mentalidade dos campeões nem sempre é sobre vencer. É sobre deixar tudo o que têm em campo, cada grama de paixão e energia que cada um deles tem. É ir sempre à luta sem medo. É acreditar até ao último segundo. E se for derrubado, ter a capacidade de superar a adversidade. Isto é ser Conquistador! Isto é ser Vitória!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.