Onde há Vitória há poder

“O único poder que voce tem é o poder de suas decisões. Use-o à vontade.”

– Paulo Coelho

Este sábado mais de 7 dezenas de vitorianos estiveram mais de 5h no pavilhão Unidade Vimaranense para comentar, debater e decidir o futuro do Vitória Sport Clube.

Ser vitoriano é muito mais do que cantar no estádio, é mais do que percorrer este país de lés a lés. Ser vitoriano é mais do que apoiar a equipa de futebol. Ser vitoriano é mais do que ir a todos os jogos de todas as modalidades do clube.

Uma das coisas que sempre distinguiu os vitorianos de todos os outros foi o nível de envolvimento que os mesmos sempre exigiram e persistirem em ter no clube.

Não sou dos tempos das longas Assembleias de Pimenta Machado que muitos mencionam, mas ainda sou do tempo das longas e bastante interventivas Assembleias de Emílio Macedo da Silva. Longas noites de sexta feira que se alongavam pela madrugada nas quais todas as decisões da Direção eram escrutinadas até ao mais ínfimo pormenor. Noites de sexta feira à noite em que os vitorianos enchiam o pavilhão do Vitória para questionar a direção e debater o estado atual do Vitória.

Desde a criação da SAD que não me lembro de assistir a uma Assembleia Geral com tanta participação e com tanta intervenção.

Excluindo alguns momentos com comportamentos que deveriam ficar em jogos de futebol e que não deveriam ter presença em Assembleias Gerais (nada justifica a utilização de insultos), a Assembleia Geral de sábado fica marcada pela grande demonstração de vitorianismo.

Debatia-se o futuro do clube e os vitorianos não quiseram deixar que ele fosse decido por outros. Marcaram presença em peso na Assembleia Geral e quase duas dezenas de pessoas fizeram questão de se pronunciar.

O que estava em causa naquela Assembleia Geral Extraordinária?

Antes de mais, estava em causa a adição de mais um poder à Assembleia Geral do Vitória Sport, o de auscultação dos associados, em Assembleia-Geral, para qualquer alteração ao pacto social da sociedade anónima desportiva.

Um dos grandes contributos da discussão da Assembleia Geral foi a alteração do verbo utilizado nesta alínea. A alteração de auscultação para deliberação, reforçando ainda mais os poderes dos associados, acrescentou ainda mais poderes a esta alínea.

É relevante perceber que neste momento a Direção do Clube tem o dever de informar e consultar os sócios do Vitória Sport Clube (detentores de 40% da SAD do Vitória Sport Clube, Futebol SAD e das acções tipo A dessa mesma associação), mas não há nada legal que a obrigue a tal. Os estatutos do clube, são, tal como se comprovou esta semana, passíveis de várias interpretações e isso poderá causar alguns problemas no futuro.

Os sócios do Vitória tiveram no sábado a oportunidade de tornar obrigatória a deliberação por parte dos sócios do Vitória Sport Clube de qualquer alteração aos estatutos do Vitória Sport Clube, Futebol SAD, mas depois de vários meses a pedir maior intervenção dos sócios na vida do clube  (para minha enorme surpresa), os vitorianos decidiram que não queriam ter esse poder.

Portanto, continua tudo na mesma e a Direção continua a ter total liberdade para tomar as decisões relativas às alterações dos Estatutos da SAD sem prévia consulta (e sem deliberação) dos sócios. A Direção terminou a Assembleia Geral anunciando que não o iria fazer, que iria continuar a informar e a dar aos sócios a oportunidade de se pronunciarem e de decidirem sobre as alterações dos estatutos da SAD e que seriam feitas sessões de esclarecimento para decidir os outros dois pontos da convocatória.

Honestamente, acho que é de extrema importância que aquando da alteração dos estatutos do clube (que já está prevista acontecer) voltemos a analisar e a votar a alteração deste ponto.

Sem receios de que haja qualquer interesse por de trás dessa alteração (pareceu-me ser esse o grande motivo para a decisão dos vitorianos), talvez os vitorianos se apercebam que a introdução desta adenda nos estatutos do clube (com a terminologia atualizada para deliberar) é, não só uma valorização dos poderes dos associados, como é também mais uma blindagem da SAD, tornado obrigatória a deliberação dos sócios do clube para que sejam feitas alterações nos estatutos da SAD.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.