Setembro

“Setembro sabe a mar e a saudade (…)” como canta José Alberto Reis. É um mês longo com recomeços e saudades do passado tão próximo.

Em Setembro os professores, com salários de fazer inveja, acumulam-se na fila do centro de emprego e esperam que estes dias sem futuro passem o mais rápido possível. Desejam ter trabalho quer seja perto de casa ou em escolas mais longínquas.

Nas escolas esperam-se grandes mudanças, prepara-se a chegada dos alunos que vão para a escola pela primeira vez, os alunos que mudam de ciclo, os alunos que saem para o ensino superior. Em algumas os telhados continuam com as telhas partidas, noutras a cantina continua com os fogões desligados porque as refeições preparadas vão chegar à hora do almoço sem que se sinta a azáfama na cozinha logo ao iniciar do dia.

Ouvem-se as ansiedades dos pais e as promessas dos filhos. Os professores, cheios de energia renovada, enchem os programas anuais de sonhos e projectos. Algumas escolas já usam os quadros electrónicos, os tabletes, os computadores portáteis e os livros em papel vão sendo substituídos. Noutras escolas os alunos ainda não têm livros, porque os programas de entrega gratuita dos livros, aprovado pela insistência de quem não desiste de defender a escola pública, se atrasou.

Em Guimarães temos um pouco de cada uma destas realidades, as escolas que aguardam obras, os alunos que aguardam mais conforto nas salas de aulas, os professores que aguardam a sua vez no ensino, os pais que desejam que a alimentação seja o mais saudável possível sem que se opte pelo menu mais barato e há até a realidade que ninguém gosta, o fecho de escolas.

O ano lectivo de 2018/2019 inicia-se com menos 1000 alunos no concelho de Guimarães e as causas para esta realidade cada vez mais presente são pouco ou nada exploradas. Podemos lançar várias hipóteses, podemos tentar adivinhar nas conversas de café ou de amigos, mas o que deveríamos fazer era pedir esclarecimentos concretos sobre esta questão que se reflecte no envelhecimento da população.

Guimarães perde alunos e perde população, e não conseguimos compreender qual o papel do executivo municipal na mudança deste rumo.

Vamos aos factos. É impossível sair da casa dos pais ou pensar em formar família quando as rendas das casas se tornam incomportáveis. É mais atractivo viver numa cidade que oferece a possibilidade de se andar de transportes públicos e que não nos obriga a ficar presos nas nossas próprias casas depois das 19h. É natural que se escolha viver numa cidade que tenha maior oferta de berçários, de infantários, que tenha mais centros de dia, que ofereça maior conforto no dia-a-dia.

No entanto, nenhum dos mil e um projectos em que se envolvem professores e alunos, auxiliares e pais, consegue impedir que as crianças e os jovens passem tantas horas na escola. Alguns permanecem lá mais do que 8 horas por dia, “trabalhando” mais do que os seus próprios pais. Dir-me-ão que os pais necessitam de vários projectos de ocupação de tempos livres porque já não se pode deixar as crianças a brincar na rua. Dir-me-ão que o apoio familiar não é o de outros tempos. Dir-me-ão que desta forma as crianças e os jovens desenvolvem novos conhecimentos.

Dir-vos-ei que a proposta da fixação do horário semanal de trabalho em 35 horas para todos permitiria não só que crianças e jovens passassem menos tempo na escola, mas que brincassem mais e estivessem mais tempo com os seus pais e familiares. PS, PSD e CDS chumbaram essa proposta, fiados em que haverá sempre mais um projecto que o município financiará para que as crianças não se sintam abandonadas e aborrecidas enquanto os seus pais contribuem para o enriquecimento de alguns.

Depois admiram-se que a população vimaranense esteja a envelhecer.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.