Da vergonha alheia

Até há algumas semanas, olhávamos para o que estava a acontecer nos Estados Unidos em matéria de abuso / assédio / violência sexual e assistimos ao surgimento de movimentos como o #metoo e o #believesurvivors, cujas réplicas mais ou menos timidamente chegaram a Portugal.

Eis então que Cristiano Ronaldo – o herói nacional – traz o assunto do abuso sexual para este lado do Atlântico. Por mão do jornal Der Spiegel, após receber documentos libertados pela plataforma Football Leaks, soube-se da queixa de violação em 2009 e posterior acordo de confidencialidade entre o jogador e Kathryn Mayorga. A reportagem traduzida em português para quem quiser ler está aqui nesse link.

Numa situação de alegada queixa de crime sexual, eu estou sempre do lado da vítima. Principalmente, se esta for do sexo feminino, será a primeira pessoa a ser julgada. É julgada pelo sítio em que está, pela roupa que veste, pelo comportamento que tem. É julgada se o alegado agressor for muito rico ou muito famoso – e aí enfrenta um desequilíbrio de poder de dimensões bíblicas (tanto em termos de opinião pública como de acesso a melhores advogados).  É sempre a primeira a ser julgada e, portanto, eu acredito nas vítimas primeiro. Posto isto, não me ocorre ir para o praça pública ofender o Cristiano Ronaldo, chamar-lhe violador e outras coisas. Fico atenta ao desenrolar do caso e espero, nas instâncias próprias, que se apure a verdade.

O que eu acho inacreditável é que pessoas que não conhecem o jogador de futebol de lado nenhum a não ser de o ver joga à bola, defendam com todo a certeza a sua inocência e fazem juízos de valor sobre a queixosa e, tantas vezes, insultam.

Não sei se as pessoas pensam nisto, mas independentemente da inocência do Cristiano Ronaldo, quando dizemos que a queixosa é uma prostituta – como se estas pudessem ser violadas – ou que só quer dinheiro, ou quando partimos para insultos ainda mais ordinários – principalmente quando fomos figuras públicas e/ou o fazemos publicamente, estamos a enviar mensagens para outras vítimas de violência sexual – estamos a dizer para que se calem, para que não façam queixa porque para além de não serem levadas a sério, estamos a mostrar-lhes que serão motivo de chacota. E isto, acreditava eu, que não seria mais aceitável.

Vergonha alheia é o que tenho sentido a ler algumas declarações, comentários, textos de pessoas reconhecidas, mulheres ou associações que se dizem feministas e que, quando o assunto é o herói nacional, põe em causa a mulher ou condenam o seu comportamento. Ou ignoram o assunto. Porque assumir publicamente que a hipótese de o Cristiano Ronaldo ter cometido um crime é para levar a sério, não é bom para gerar simpatias. Afinal, é sempre mais fácil estar do lado da maioria.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.