Diário em Lesvos: Fuga constante da guerra

Com a invasão do exército americano, em 2003, este jovem de 22 anos viu o pai, que era polícia, ser convidado a juntar-se à Al-Qaeda. Rejeitou a oferta e foi obrigado a fugir do Iraque, sob ameaça de morte, e a família mudou-se para a Síria. O jovem refere ter tido uma vida normal até ao início da guerra neste país, mas quando, em 2010, começaram os bombardeamentos e as mortes, mudou-se para a Turquia, onde conseguiu emprego e conheceu uma iraquiana curda, com quem se casou.

Em 2015, os soldados do Estado Islâmico instalaram-se na Turquia. Muitos destes soldados vinham da cidade de Diala, no Iraque, cidade onde a família viveu até abandonar o país, o que fez com que voltassem a receber ameaças por parte do Estado Islâmico. Para se proteger, o pai atravessou o Mediterrâneo até à ilha de Samos, na Grécia, onde ficou como refugiado, tendo sido recolocado na Alemanha. Mais tarde, o jovem embarcou na travessia do Mediterrâneo, juntamente com a esposa grávida e a sua família. Na primeira tentativa, o barco ficou sem combustível durante a viagem e foram resgatados pela polícia turca. Na segunda tentativa, conseguiram chegar a Lesvos e foram levados para o campo de refugiados de Moria.

“Na primeira hora que estive em Moria já estava a ver lutas.” Foi ameaçado por outros árabes, por estar casado com uma jovem curda. Em maio de 2018, com o escalar dos conflitos, foram levados pela polícia para o campo de refugiados de Larsos, onde ficaram três meses. “Em Larsos, também não tínhamos condições. Era muito sujo e não nos davam comida.” A esposa contraiu uma grave infeção nos rins enquanto estava grávida, tendo passado três semanas internada no hospital. Um mês mais tarde, nasceu a filha do casal e mudaram-se para o campo de Kara Tepe. Pensando no futuro, quer sair da ilha de Lesvos o mais rápido possível, para outro país europeu, por ali não sentir que está no continente europeu. Deixa ainda um conselho à Europa: “Na II Guerra Mundial, os europeus fugiram para os países árabes e nós ajudámo-vos. Agora está a acontecer a mesma coisa mas ao contrário. A Europa devia ajudar-nos”.

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Escultura à entrada do campo de refugiados de Kara Tepe. Representa duas mãos dadas, simbolizando a união e entreajuda.
O meu nome é Ana Luísa Moreira, tenho 23 anos e sou de Guimarães. Licenciei-me em Psicologia pela Universidade Católica de Braga e, atualmente, frequento o 2º ano do Mestrado em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante, na Universidade Católica do Porto. No âmbito da minha dissertação de mestrado, decidi dedicar-me ao estudo dos refugiados, por ser um tema que caiu em esquecimento, apesar de a crise se manter. Tive a oportunidade de recolher dados junto de refugiados na ilha de Lesvos, na Grécia, conhecê-los realmente e ter acesso à informação em primeira mão. Durante os dias em que lá estive, ainda tive oportunidade de fazer trabalho de voluntariado com crianças e jovens. Foi uma experiência de vida única e espero voltar como voluntária no final do mestrado. De Lesvos trouxe o coração cheio, muitos abraços, muitos pedidos de ajuda e mensagens de agradecimento. É isso que aqui partilho convosco.