A OBRA

No final do artigo da passada semana tinha anunciado que no de hoje escreveria sobre a comunicação social de âmbito local dentro da temática “Democracia e Informação” que tinha começado a desenvolver no referido artigo.

Contudo, e isto de formular opinião exige alguma flexibilidade temporal, um tema dos últimos dias parece-me merecer uma reflexão imediata face ao interesse de que se reveste e às implicações políticas e desportivas que encerra pelo que o artigo prometido ficará para próxima oportunidade.

Refiro-me ao lançar da ideia, e neste momento é apenas isso, de o Vitória vender os terrenos do complexo desportivo para um projecto imobiliário de significativa dimensão e com o dinheiro arrecadado no negócio construir um moderno centro de estágio fora da cidade e num espaço suficientemente grande para preencher todas as necessidades do clube para os próximos largos anos.

A ideia foi lançada por Júlio Mendes, em entrevista a “O Jogo”, e como é normal numa proposta que tem tudo para ser polémica face às idiossincrasias próprias do clube já divide opiniões quer nas redes sociais quer na assembleia geral  do passado sábado em que das poucas intervenções sobre o assunto não colheu grande apoio.

Penso que é uma ideia interessante, que merece uma reflexão alargada e uma ponderação serena tão ao arrepio do que é moda nas redes sociais, mas que pode ter pernas para andar se as coisas forem bem feitas.

Vejo, à partida, dois problemas que poderão por em causa a realização do negócio :

A zona onde hoje se encontra o complexo desportivo “António Pimenta Machado” (que eu saiba o nome é esse e nenhum outro) tem já em redor do mesmo uma elevada densidade construtiva  e os terrenos onde está implantado não poderão permitir novas construções salvo se o PDM for alterado de molde a torná-los zona de construção.

E fácil será prever que qualquer tentativa de os urbanizar será fortemente contestada com argumentos ambientais, ecológicos e até de qualidade de vida.

Esse é um primeiro problema que só a Câmara poderá, em princípio, resolver nada podendo o clube fazer que não seja pressionar o município nesse sentido mas sem qualquer garantia de sucesso porque a autarquia quando se trata do Vitória para dar um “presunto” quer em troca um “porco”.

O segundo problema poderá ser o contrato de cedência dos terrenos pela Unidade Vimaranense ao Vitória.

Se bem me lembro de uns documentos que li largos anos atrás,quando desempenhava o cargo de secretário-geral do Vitória,  terá sido estipulado que a cedência desses terrenos ao clube se fazia sob a condição de eles não poderem ser alienados nem utilizados para outros fins que não os desportivos.

Posso estar errado mas creio que o  sentido era esse e dada a extinção da “Unidade Vimaranense” , anos atrás, creio que  ele nunca terá sido alterado.

São, a confirmarem-se, dois problemas muito complicados de ultrapassar .

Quanto à ideia em si ela parece-me muito positiva.

Aliás já na campanha eleitoral de 2010, que opôs as listas de Emílio Macedo e Pinto Brasil, a deste último defendia que se devia construir um moderno centro de estágio , no caso apenas para o futebol profissional, longe da cidade para que as equipas que nele trabalhassem pudessem ter todas as condições de tranquilidade, privacidade e reserva.

Defendendo até que uma parte separada desse centro de estágio devia ser para alugar a equipas estrangeiras que no inverno vem estagiar a Portugal afectando a receita desses alugueres aos custos de manutenção.

Mas a lista de Pinto Brasil perdeu as eleições e a ideia morreu.

Ressurge agora de uma forma mais global pretendendo levar para a zona de Silvares todo o futebol do clube, e não apenas o profissional, de molde a que o Vitória possa ter o seu “Seixal”, “Alcochete” ou “Olival” ultrapassando as lacunas do actual complexo desportivo que tendo sido pioneiro e inovador no seu tempo está hoje ultrapassado e sem espaço para a expansão que todos vemos como necessária.

É a minha opinião e com ela pretendo contribuir para o tal debate reflexivo e ponderado que permita num espaço de tempo razoável tomar as decisões certas naquilo que dos associados do Vitória depende.

Sabendo-se que um moderno centro de estágio potenciará a capacidade competitiva das nossas equipas de futebol profissional mas não fazendo da sua construção a condição única para que essa competitividade exista.

Luís Cirilo Carvalho, 58 anos, já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.