Diário em Lesvos: Aventura e esperança

Um jovem iraquiano de 20 anos está há dois anos retido na ilha de Lesvos. Deixou a sua família e abandonou o seu país por ser um local perigoso, com muita guerra e discriminação. Foi até à Turquia de avião, onde permaneceu 4 dias até avançar para a Grécia de barco: “A viagem foi muito arriscada. Foi a primeira vez que vi o mar na vida. Não sabia nadar e não tinha colete salva-vidas. Mas arrisquei e consegui”. Quando chegou a Lesvos, foi levado pela polícia para o campo de refugiados de Moria e recorda-se de ter pensado “por que é que me estão a levar para a prisão?”.

Do tempo que lá viveu, conta que tinha de esperar horas na fila para ter comida e, por vezes, quando chegava a sua vez, já não havia. No inverno, não havia condições para suportar o frio e muitas pessoas morriam. Além disso, a comida era fraca e o atendimento médico muito precário, o que não permitia que as pessoas tivessem defesas suficientes para suportar as condições em que viviam. Após 8 meses a (sobre)viver, alugou um apartamento em Mytilini, a 7 km de Moria. Juntou-se, como voluntário, a uma organização que trabalha para alimentar mulheres e crianças no centro de detenção.

“Se as pessoas não têm uma alimentação de qualidade, não conseguem fazer mais nada. A alimentação é uma das coisas mais básicas que o ser humano precisa. Então, tentamos dar às pessoas comida de qualidade”. Atualmente, aguarda a aprovação do pedido de asilo, queixando-se da demora do processo na Grécia. Deixa uma mensagem importante àqueles que ainda vão embarcar na viagem para a Europa em busca de uma vida melhor: “Vão passar por muitas dificuldades, mas não percam a esperança. É só uma questão de tempo”.

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Isobox do campo de Kara Tepe decorada com pinturas de esperança e liberdade.
O meu nome é Ana Luísa Moreira, tenho 23 anos e sou de Guimarães. Licenciei-me em Psicologia pela Universidade Católica de Braga e, atualmente, frequento o 2º ano do Mestrado em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante, na Universidade Católica do Porto. No âmbito da minha dissertação de mestrado, decidi dedicar-me ao estudo dos refugiados, por ser um tema que caiu em esquecimento, apesar de a crise se manter. Tive a oportunidade de recolher dados junto de refugiados na ilha de Lesvos, na Grécia, conhecê-los realmente e ter acesso à informação em primeira mão. Durante os dias em que lá estive, ainda tive oportunidade de fazer trabalho de voluntariado com crianças e jovens. Foi uma experiência de vida única e espero voltar como voluntária no final do mestrado. De Lesvos trouxe o coração cheio, muitos abraços, muitos pedidos de ajuda e mensagens de agradecimento. É isso que aqui partilho convosco.