Diário em Lesvos: Violência que passa fronteiras

Uma família curda, oriunda de Alepo, abandonou a Síria para fugir à guerra. Contam que os soldados do Estado Islâmico e o exército turco começaram a abrir guerra com a população curda, lançando bombas e avançando com tanques em Alepo. Fugiram para o Líbano, tendo, 3 meses mais tarde, regressado à Síria. O pai recorda o dia em que um elemento do Estado Islâmico lhe cortou o dedo anelar, por estar a fumar um cigarro.

Com a escalada do conflito entre os soldados turcos e curdos, foram para a Turquia. Andaram durante 4 dias para lá chegar e pagaram a alguém para os deixar atravessar a fronteira. Tendo desenvolvido complicações na mão, decorrentes da perda do dedo, procurou chegar à Grécia para tratar o seu problema, já que os médicos turcos não o ajudavam. Deslocaram-se da cidade turca de Izmir até Lesvos, numa viagem de 7 horas. Foram para o campo de refugiados de Moria, onde ficaram apenas 15 dias, uma vez que, segundo a família, os árabes da cidade síria de Deir Zor começaram a gerar conflitos com a população curda, reabrindo problemas criados em 2004.

O pai da família foi violentamente atacado em Moria por residentes árabes e refere: “Não fui só eu. A Europa tem de saber que eles atacam toda a gente. Homens, mulheres… Tudo.” Foram então transferidos para o campo de refugiados de Larsos, onde viveram durante 3 meses, até irem para o campo de Kara Tepe. Atualmente, o pai trabalha como jardineiro voluntário em Kara Tepe e a família ambiciona voltar a ter uma vida normal.

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Grades e arame farpado que envolvem o campo de refugiados de Moria
O meu nome é Ana Luísa Moreira, tenho 23 anos e sou de Guimarães. Licenciei-me em Psicologia pela Universidade Católica de Braga e, atualmente, frequento o 2º ano do Mestrado em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante, na Universidade Católica do Porto. No âmbito da minha dissertação de mestrado, decidi dedicar-me ao estudo dos refugiados, por ser um tema que caiu em esquecimento, apesar de a crise se manter. Tive a oportunidade de recolher dados junto de refugiados na ilha de Lesvos, na Grécia, conhecê-los realmente e ter acesso à informação em primeira mão. Durante os dias em que lá estive, ainda tive oportunidade de fazer trabalho de voluntariado com crianças e jovens. Foi uma experiência de vida única e espero voltar como voluntária no final do mestrado. De Lesvos trouxe o coração cheio, muitos abraços, muitos pedidos de ajuda e mensagens de agradecimento. É isso que aqui partilho convosco.