Diário em Lesvos: Boca do Inferno

Um casal afegão e dois dos seus cinco filhos deixaram tudo para trás e partiram com o objetivo de chegar à Europa. Saíram do seu país, onde eram perseguidos por motivos religiosos. Temendo pela vida, ficaram apenas 10 dias na Turquia, até conseguirem um negócio com os smugglers para irem até à ilha de Lesvos, na Grécia.

O pai descreve a jornada como “uma viagem para a boca da morte”, dizendo que “foi uma sorte chegarmos aqui sãos e salvos”. Ao atravessar o Mediterrâneo, o barco rompeu-se e a água começou a entrar, empurrando-o para baixo. Por momentos, instalou-se o pânico e acharam que não iriam sobreviver. A guarda costeira grega apercebeu-se e conseguiu resgatá-los, levando-os em segurança até à ilha. Foram para o centro de detenção de Moria, onde ficaram durante cinco meses. Ao falar de Moria, queixam-se das péssimas condições e dos conflitos violentos, referindo que se sentiram psicologicamente torturados durantes esses meses.

Agora, estão no campo de refugiados de Kara Tepe e dizem que, apesar de viverem em melhores condições, ainda não têm uma vida normal. Agradecem o trabalho dos voluntários e referem que, sem eles, os refugiados não teriam sobrevivido. Agradecem especialmente aos voluntários portugueses e pedem a Portugal que acolha mais refugiados.

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Lifejacket Graveyard: local em Lesvos que concentra milhares de coletes salva-vidas usados na viagem até à Grécia.
O meu nome é Ana Luísa Moreira, tenho 23 anos e sou de Guimarães. Licenciei-me em Psicologia pela Universidade Católica de Braga e, atualmente, frequento o 2º ano do Mestrado em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante, na Universidade Católica do Porto. No âmbito da minha dissertação de mestrado, decidi dedicar-me ao estudo dos refugiados, por ser um tema que caiu em esquecimento, apesar de a crise se manter. Tive a oportunidade de recolher dados junto de refugiados na ilha de Lesvos, na Grécia, conhecê-los realmente e ter acesso à informação em primeira mão. Durante os dias em que lá estive, ainda tive oportunidade de fazer trabalho de voluntariado com crianças e jovens. Foi uma experiência de vida única e espero voltar como voluntária no final do mestrado. De Lesvos trouxe o coração cheio, muitos abraços, muitos pedidos de ajuda e mensagens de agradecimento. É isso que aqui partilho convosco.