Diário em Lesvos: Os dez dias de Ana Luísa em Kara Tepe

Dia 1: A paz dentro da tormenta

Um casal curdo na casa dos 30 anos e os seus dois filhos (um menino de 5 anos e uma menina de 2 anos), oriundos de Kobani, na Síria, recordam a sua vida maravilhosa antes da guerra. O marido trabalhava e a esposa frequentava o quarto ano do curso superior em Literatura Inglesa. Permaneceram em Kobani até a cidade ser atacada pelo Estado Islâmico, momento em que fugiram para a Turquia, onde viveram durante 5 meses. Regressaram a Kobani, mas a cidade estava destruída, coberta de sangue e de cadáveres.

Voltaram para a Turquia, deslocando-se a pé, durante a noite e sem passaporte. Numa primeira tentativa de chegar à Grécia, foram apanhados pela polícia turca. Numa segunda vez, conseguiram chegar a Lesvos e foram levados para o centro de detenção de Moria, local que descrevem como “pior do que Kobani”:

sobrelotação extrema, com várias famílias a viver na mesma isobox, a dormir no chão, muito frio durante a noite, sem cobertores para as crianças, filas de 3 horas para comer, muita sujidade nas casas-de-banho e inexistência de água quente, tudo isto com a violência sempre presente.

Vivendo nestas condições, o filho do casal contraiu uma grave infeção pulmonar. Devido aos conflitos entre árabes e curdos, a família fugiu para o campo de refugiados de Pikpa, sob ameaça de morte por parte dos árabes, depois de 2 meses em Moria. Ficaram em Pikpa durante 10 dias e mudaram-se para o campo de refugiados de Kara Tepe, um local destinado a famílias.

Descrevem Kara Tepe como um local pacífico, calmo e bom para as crianças, com espaço para todos. Ainda assim, ambicionavam ser transferidos para Atenas – o que conseguiram três dias após a entrevista – e, mais tarde, conseguir viver na Noruega, onde têm família. Atualmente, a senhora está grávida do terceiro filho, com placenta prévia e bastantes complicações associadas.

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Cuidar das crianças é uma das funções das voluntárias

Dia 2: O voluntário informático

Um jovem afegão, de 23 anos, vivia com a mãe e os cinco irmãos na cidade de Cabul. Em 2016, deixou a família e fugiu do seu país, devido a problemas com a máfia. Mudou-se para o Irão, onde permaneceu durante seis meses, tendo ainda vivido um ou dois meses na Turquia, antes de chegar à ilha de Lesvos.

Na primeira vez que tentou fazer a viagem até à Grécia, foi apanhado pela polícia turca e esteve preso durante duas semanas. Na segunda tentativa, apesar de ter sido uma viagem difícil, com problemas no motor do barco, conseguiu chegar ao destino, com o auxílio da guarda costeira grega. Já no centro de detenção de Moria, juntou-se à irmã e à sua família. Eram seis pessoas, incluindo crianças, a viver numa tenda muito pequena, sem qualquer resguardo para o frio. Após outros sete meses, foram transferidos para Kara Tepe, onde permanecem há mais de um ano.

O jovem é voluntário em várias organizações, contribui na distribuição de água e comida no campo e dá aulas de informática a crianças e adultos. Apesar de ter uma vida melhor em Kara Tepe, lamenta o facto de estar retido em Lesvos há dois anos e refere estar cansado e muito preocupado com o seu futuro.

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Digital Learning Lab (sala onde decorrem as aulas de informática) no campo de refugiados de Kara Tepe

Dia 3: Fuga constante da guerra

Com a invasão do exército americano, em 2003, este jovem de 22 anos viu o pai, que era polícia, ser convidado a juntar-se à Al-Qaeda. Rejeitou a oferta e foi obrigado a fugir do Iraque, sob ameaça de morte, e a família mudou-se para a Síria. O jovem refere ter tido uma vida normal até ao início da guerra neste país, mas quando, em 2010, começaram os bombardeamentos e as mortes, mudou-se para a Turquia, onde conseguiu emprego e conheceu uma iraquiana curda, com quem se casou.

Em 2015, os soldados do Estado Islâmico instalaram-se na Turquia. Muitos destes soldados vinham da cidade de Diala, no Iraque, cidade onde a família viveu até abandonar o país, o que fez com que voltassem a receber ameaças por parte do Estado Islâmico. Para se proteger, o pai atravessou o Mediterrâneo até à ilha de Samos, na Grécia, onde ficou como refugiado, tendo sido recolocado na Alemanha. Mais tarde, o jovem embarcou na travessia do Mediterrâneo, juntamente com a esposa grávida e a sua família. Na primeira tentativa, o barco ficou sem combustível durante a viagem e foram resgatados pela polícia turca. Na segunda tentativa, conseguiram chegar a Lesvos e foram levados para o campo de refugiados de Moria.

“Na primeira hora que estive em Moria já estava a ver lutas.” Foi ameaçado por outros árabes, por estar casado com uma jovem curda. Em maio de 2018, com o escalar dos conflitos, foram levados pela polícia para o campo de refugiados de Larsos, onde ficaram três meses. “Em Larsos, também não tínhamos condições. Era muito sujo e não nos davam comida.” A esposa contraiu uma grave infeção nos rins enquanto estava grávida, tendo passado três semanas internada no hospital. Um mês mais tarde, nasceu a filha do casal e mudaram-se para o campo de Kara Tepe. Pensando no futuro, quer sair da ilha de Lesvos o mais rápido possível, para outro país europeu, por ali não sentir que está no continente europeu. Deixa ainda um conselho à Europa:

“Na II Guerra Mundial, os europeus fugiram para os países árabes e nós ajudámo-vos. Agora está a acontecer a mesma coisa mas ao contrário. A Europa devia ajudar-nos”.

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Escultura à entrada do campo de refugiados de Kara Tepe. Representa duas mãos dadas, simbolizando a união e entreajuda.

Dia 4: A luz ao fundo do barco

Agora com 17 anos, este jovem nasceu no Irão como refugiado, onde permaneceu durante 12 anos. Sob ameaça dos terroristas devido à profissão do pai, que era jornalista, mudou-se para o Afeganistão com a família. Três anos depois, novamente perseguidos, tomaram a decisão de fugir para a Europa. Foram para a Turquia, onde ficaram durante dois anos, uma vez que as fronteiras europeias já estavam fechadas. Ao fim de dois anos, embarcaram na travessia do Mediterrâneo, para chegar à ilha de Lesvos.

Recorda o medo e a hesitação da família no momento de entrar no barco. Refere ainda:

“Já durante a viagem, vimos um barco com uma luz forte a aproximar-se. Pensámos que era a polícia turca e entrámos em pânico. Toda a gente gritava para irmos mais rápido. Quando o barco se aproximou, vimos a bandeira grega e toda a gente ficou feliz”.

Quando chegaram, foram para o centro de detenção de Moria, onde viveram em péssimas condições: “Éramos três famílias numa tenda, quinze pessoas numa tenda.

Não conseguia dormir. Durante muito tempo, não dormia. A nossa tenda era num sítio muito perigoso, onde havia muita violência. Lembro-me de um dia acordar e os nossos sapatos estarem cheios de sangue, por causa das lutas da noite anterior.” Viveram em Moria durante um mês e meio, até serem transferidos para o campo de refugiados de Kara Tepe, onde vivem há cinco meses.

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Sessão das voluntárias portuguesas com o grupo de jovens no campo de refugiados de Kara Tepe.

Dia 5: Apelo a Marcelo

Um casal curdo e os seus 4 filhos deixaram o Iraque para fugir à guerra. Foram para a Turquia, onde o pai foi detido pela polícia. Conta que lhe disseram para sair do território turco: “Volta para o Iraque ou vai para a Europa, mas tens de sair da Turquia”. Conseguiram um negócio com smugglers para irem até à ilha de Lesvos, na Grécia.

Quando chegaram, foram para o centro de detenção de Moria, onde viveram durante um mês. Recordam as más condições em que viviam, realçando que passaram muita fome, o que foi muito complicado, tendo em conta que tinham crianças pequenas. “Sempre que íamos para a fila da comida, havia conflitos”. Foram então transferidos para o campo de refugiados de Kara Tepe, onde vivem há um ano. Entretanto, tiveram mais uma filha e referem que, em Kara Tepe, receberam mais ajuda e melhor tratamento para a bebé do que recebiam no Iraque.

Aguardam com incerteza uma resposta acerca do futuro e aproveitam para deixar uma mensagem para o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa:

“Somos uma família de 7 pessoas. Queremos viver em Portugal, porque lá temos muitos amigos. Só precisamos que nos deixem chegar até Portugal, porque depois os nossos amigos vão ajudar-nos a arranjar casa e emprego. Não queremos arranjar problemas. Só queremos poder viver num país seguro e com oportunidades para a nossa família”.

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Bandeira portuguesa protege uma janela de Kara Tepe dos raios solares.

Dia 6: Aventura e esperança

Um jovem iraquiano de 20 anos está há dois anos retido na ilha de Lesvos. Deixou a sua família e abandonou o seu país por ser um local perigoso, com muita guerra e discriminação. Foi até à Turquia de avião, onde permaneceu 4 dias até avançar para a Grécia de barco: “A viagem foi muito arriscada. Foi a primeira vez que vi o mar na vida. Não sabia nadar e não tinha colete salva-vidas. Mas arrisquei e consegui”. Quando chegou a Lesvos, foi levado pela polícia para o campo de refugiados de Moria e recorda-se de ter pensado “por que é que me estão a levar para a prisão?”.

Do tempo que lá viveu, conta que tinha de esperar horas na fila para ter comida e, por vezes, quando chegava a sua vez, já não havia. No inverno, não havia condições para suportar o frio e muitas pessoas morriam. Além disso, a comida era fraca e o atendimento médico muito precário, o que não permitia que as pessoas tivessem defesas suficientes para suportar as condições em que viviam. Após 8 meses a (sobre)viver, alugou um apartamento em Mytilini, a 7 km de Moria. Juntou-se, como voluntário, a uma organização que trabalha para alimentar mulheres e crianças no centro de detenção.

“Se as pessoas não têm uma alimentação de qualidade, não conseguem fazer mais nada. A alimentação é uma das coisas mais básicas que o ser humano precisa. Então, tentamos dar às pessoas comida de qualidade”.

Atualmente, aguarda a aprovação do pedido de asilo, queixando-se da demora do processo na Grécia. Deixa uma mensagem importante àqueles que ainda vão embarcar na viagem para a Europa em busca de uma vida melhor: “Vão passar por muitas dificuldades, mas não percam a esperança. É só uma questão de tempo”.

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Isobox do campo de Kara Tepe decorada com pinturas de esperança e liberdade.

Dia 7: Violência que passa fronteiras

Uma família curda, oriunda de Alepo, abandonou a Síria para fugir à guerra. Contam que os soldados do Estado Islâmico e o exército turco começaram a abrir guerra com a população curda, lançando bombas e avançando com tanques em Alepo. Fugiram para o Líbano, tendo, 3 meses mais tarde, regressado à Síria.

O pai recorda o dia em que um elemento do Estado Islâmico lhe cortou o dedo anelar, por estar a fumar um cigarro.

Com a escalada do conflito entre os soldados turcos e curdos, foram para a Turquia. Andaram durante 4 dias para lá chegar e pagaram a alguém para os deixar atravessar a fronteira. Tendo desenvolvido complicações na mão, decorrentes da perda do dedo, procurou chegar à Grécia para tratar o seu problema, já que os médicos turcos não o ajudavam. Deslocaram-se da cidade turca de Izmir até Lesvos, numa viagem de 7 horas. Foram para o campo de refugiados de Moria, onde ficaram apenas 15 dias, uma vez que, segundo a família, os árabes da cidade síria de Deir Zor começaram a gerar conflitos com a população curda, reabrindo problemas criados em 2004.

O pai da família foi violentamente atacado em Moria por residentes árabes e refere: “Não fui só eu. A Europa tem de saber que eles atacam toda a gente. Homens, mulheres… Tudo.” Foram então transferidos para o campo de refugiados de Larsos, onde viveram durante 3 meses, até irem para o campo de Kara Tepe. Atualmente, o pai trabalha como jardineiro voluntário em Kara Tepe e a família ambiciona voltar a ter uma vida normal.

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Grades e arame farpado que envolvem o campo de refugiados de Moria

Dia 8: Boca do Inferno

Um casal afegão e dois dos seus cinco filhos deixaram tudo para trás e partiram com o objetivo de chegar à Europa. Saíram do seu país, onde eram perseguidos por motivos religiosos. Temendo pela vida, ficaram apenas 10 dias na Turquia, até conseguirem um negócio com os smugglers para irem até à ilha de Lesvos, na Grécia.

O pai descreve a jornada como “uma viagem para a boca da morte”, dizendo que “foi uma sorte chegarmos aqui sãos e salvos”.

Ao atravessar o Mediterrâneo, o barco rompeu-se e a água começou a entrar, empurrando-o para baixo. Por momentos, instalou-se o pânico e acharam que não iriam sobreviver. A guarda costeira grega apercebeu-se e conseguiu resgatá-los, levando-os em segurança até à ilha.

Foram para o centro de detenção de Moria, onde ficaram durante cinco meses. Ao falar de Moria, queixam-se das péssimas condições e dos conflitos violentos, referindo que se sentiram psicologicamente torturados durantes esses meses.

Agora, estão no campo de refugiados de Kara Tepe e dizem que, apesar de viverem em melhores condições, ainda não têm uma vida normal. Agradecem o trabalho dos voluntários e referem que, sem eles, os refugiados não teriam sobrevivido. Agradecem especialmente aos voluntários portugueses e pedem a Portugal que acolha mais refugiados.

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Lifejacket Graveyard: local em Lesvos que concentra milhares de coletes salva-vidas usados na viagem até à Grécia.

Dia 9: Por montes, mares e terra

Um casal sírio, oriundo da cidade de Palmyra, partiu em direção à Europa, com os três filhos, em abril deste ano. Referem que tinham uma vida fantástica. No entanto, quando começou a guerra, ficaram muito doentes e sentiam que os filhos mereciam uma vida melhor.

Decidiram então procurar um futuro para a família na Europa. Deslocaram-se até à Turquia a pé, onde pagaram aos smugglers para irem até Lesvos num barco de borracha.

Durante a viagem, o barco rompeu e começou a afundar. Estiveram três horas no mar até receber ajuda. Quando chegaram à Grécia, foram levados para o centro de detenção de Moria, onde ficaram durante cerca de 40 dias. Recordam esse período de grandes dificuldades, mencionando a longa espera pela água e pela comida, as noites frias e o espaço limitado na tenda. Com o frio e a fraca qualidade da comida, os filhos estavam constantemente doentes.

Referem ainda que tiveram de passar noites na montanha, para proteger as crianças dos episódios constantes de violência. Atualmente, estão em Kara Tepe e gostavam de um dia viver na Suécia ou na Holanda.

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Uma das ruas de Kara Tepe. À esquerda, as zonas de entretenimento para as crianças. À direita, locais destinados à realização de atividades por parte dos voluntários.

Dia 10: Viagens sem fim

Um jovem curdo de 24 anos, originário de Alepo, descreve a sua vida antes da guerra como a vida perfeita. Conta que, com os conflitos, deixou de haver comida e começou a morrer muita gente à fome e nas explosões. Recorda-se de se ter alimentado apenas de esparguete durante vários dias. Após concluir o 12º ano, fugiu para Kobani para escapar ao exército, e lá permaneceu com a família. Mais tarde, separou-se deles e mudou-se para a Turquia à procura de emprego, tendo vivido 7 anos em Istambul a trabalhar como alfaiate. Quando o Estado Islâmico atacou Kobani, a família seguiu-o para a Turquia.

Uma vez que o dinheiro não era suficiente, decidiram abandonar o território turco. Partiram num barco de borracha até Lesvos, numa viagem de 4h30. Foram levados para o campo de refugiados de Moria, local que descreve como “o inferno”: “Era muito sujo e perigoso. Não havia segurança”.

Recorda o dia em que foi atacado por árabes com ferros, tendo contraído ferimentos na cabeça, bem como um braço e uma perna partidos. Foi levado para o hospital, onde só permaneceu três horas. “Fizeram-me uns curativos e mandaram-me embora, sem analgésicos”.

Foi interrogado na esquadra da polícia e levado novamente para Moria. Temendo pela vida, fugiu com o pai e ficaram num hotel em Mytilini para recuperar dos ferimentos.

Dois dias depois, foram para o campo de refugiados de Larsos, local que recebeu vários curdos, com o escalar do conflito em Moria. Em Larsos, viveu numa tenda gigante com 200 pessoas, durante dois meses e meio. Agora em Kara Tepe, tem uma vida boa, sem violência. Quanto ao futuro, aguarda transferência para Atenas, sem pensar no que irá acontecer depois. E aproveita para enviar uma mensagem para Portugal: “Digam olá por mim ao Casillas”.

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Uma das entradas do Olive Grove, zona adjacente ao campo de refugiados de Moria, onde estão muitos dos residentes, pela sobrelotação do campo.
O meu nome é Ana Luísa Moreira, tenho 23 anos e sou de Guimarães. Licenciei-me em Psicologia pela Universidade Católica de Braga e, atualmente, frequento o 2º ano do Mestrado em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante, na Universidade Católica do Porto. No âmbito da minha dissertação de mestrado, decidi dedicar-me ao estudo dos refugiados, por ser um tema que caiu em esquecimento, apesar de a crise se manter. Tive a oportunidade de recolher dados junto de refugiados na ilha de Lesvos, na Grécia, conhecê-los realmente e ter acesso à informação em primeira mão. Durante os dias em que lá estive, ainda tive oportunidade de fazer trabalho de voluntariado com crianças e jovens. Foi uma experiência de vida única e espero voltar como voluntária no final do mestrado. De Lesvos trouxe o coração cheio, muitos abraços, muitos pedidos de ajuda e mensagens de agradecimento. É isso que aqui partilho convosco.