Eu nunca

Esta semana saiu um artigo de opinião do Caetano Veloso no New York Times (aqui) sobre a situação política do Brasil. Entre muitas coisas, diz que já forçado ao exílio uma vez, que agora será um tempo de resistência. Admiro muito quem, já tendo passado e resistido, a uma ditadura militar, se prepara corajosamente para resistir a uma segunda.

Eu nunca vivi numa ditadura. Quando ainda era adolescente tinha um gosto especial por livros escritos ou sobre sobreviventes do Holocausto ou campos de concentração. Morria de medo e depois pensava que eram coisas do passado e que ninguém deixaria que voltasse a acontecer. Demorou um pouco até que percebesse que, na verdade, campos de trabalhos forçados e genocídios nunca deixaram de acontecer, só não estavam tão perto de mim.

Ainda assim, havia um determinado número de coisas que não esperava ver acontecer. Por exemplo, ver centenas de refugiados às portas de uma Europa de fronteiras encerradas a serem mal tratados. Ver os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres a serem postos em causa em países que pertencem à União Europeia como, por exemplo, a Polónia. Ver uma pessoa como Trump ser democraticamente eleita para presidente dos Estado Unidos da América. Ver uma pessoa dizer publicamente que vai criar um novo partido em Portugal cuja ideia política é o regresso da prisão perpétua, a proibição de casamentos homossexuais, proibição da eutanásia e tornar Portugal num autêntico liberalismo económico e político e ser levado a sério.

E depois há o Brasil. O Brasil, onde aproximadamente metade da população irá muito provavelmente eleger democraticamente alguém que elogia a ditadura militar brasileira. O Brasil vai eleger alguém que está a fazer uma campanha manhosa de desinformação através das redes sociais, cobarde, que se nega a um debate político. Alguém que espalha o ódio e valida à violência contra tudo que são minorias, que ameaça com prisão todos os movimentos de activistas e opositores políticos. A escolha no domingo é entre a democracia (com todas as suas falhas) e o horror e é de coração partido que vejo um povo tão profundamente dividido.

Eu não esperava ver que uma pessoa como Bolsonaro pudesse vir a disputar eleições em 2018. Mas ele está aí. É tempo de olharmos para a Europa e perceber que a extrema-direita também aqui ganha território e é tempo de prevenção.

Domingo estarei de coração apertado a ver o que se passa no Brasil. Os dias seguintes à primeira volta no Brasil deixaram-nos um cheirinho do que poderá acontecer na próxima semana e não foi bonito.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.