Novembro traz um Guimarães Jazz alargado no tempo e no espaço

À 27.ª edição, o evento estende-se de 08 a 17 de Novembro, com 13 concertos, sem qualquer dia de pausa para se respirar, ao contrário do que era habitual. Mas a versão de 2018 do Guimarães Jazz não se estende apenas por mais dias. Abriga também mais latitudes: Portugal, Europa, América, Brasil, Chicago, Nova Iorque. E, já agora, outras coordenadas locais, nomeadamente as escolas e alguns espaços comerciais onde vão ter lugar algumas jams.

Por Tiago Mendes Dias

Chega novembro e, com ele, dias, à partida, mais frios, acompanhada pelo fumo das castanhas que penetra os olhos e as narinas, e noites mais longas, especialmente aquela em que as caixas e os bombos rufam. Em Guimarães, contudo, a paisagem completa-se com a escuta dos contrabaixos e das baterias, das trompetes, dos saxofones, dos clarinetes, dos pianos. Novembro é o mês a que o Guimarães Jazz dá sempre rosto, embora com uma maquilhagem nunca igual. Afinal, o festival “sempre foi um projeto que se muda e que se constrói com o tempo”, justificou Ivo Martins, programador desde 1996, na apresentação do evento organizado pelo Convívio, pela Câmara Municipal e pela Oficina, decorrida na quinta-feira, na Sala 141. “A cidade, hoje, não pára. Temos um conjunto de músicos disponíveis para tocar em excelentes condições e uma estrutura montada”, completou, acerca do festival orçado este ano em 175.000 euros.

A pausa que cortava o festival em dois, habitualmente de três dias, desapareceu. O alinhamento deste ano é, por isso, um fluxo incessante de instrumentos a soar durante 10 dias, em 13 concertos, marcados para os dois auditórios do Centro Cultural Vila Flor (CCVF) e para a black box do Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG).

Mas os sons por que Guimarães espera são também mais diversos na sua origem; a cosmopolita Nova Iorque, palco de uma infinidade de cenas musicais, volta a estar presente depois de, no ano passado, ter dado ao festival músicos como os bateristas como Andrew Cyrille e Allison Miller. Presente na edição de 2012, com o quinteto Sound Prints, o trompetista Dave Douglas regressa à cidade berço com o seu projeto mais recente, o sexteto Uplift. Reconhecido por cruzar o jazz com estilos como o folk, a eletrónica e a música clássica ao longo da sua carreira de 34 anos, o músico nova-iorquino vai apresentar, no dia 15, o álbum Twelve pieces for positive action, um manifesto político e social editado num “ano crucial para a história da igualdade e da democracia no nosso país à volta do globo”. Mas o signo da Grande Maçã vai pairar também sobre as atuações da Millenial Territort Orchestra, do trompetista Steven Bernstein, e da Mingus Big Band, uma formação com 14 músicos liderada por Sue Mingus, viúva e companheira artística de Charles Mingus, um dos importantes nomes do jazz da segunda metade do século XX.

Mas há outra cidade norte-americana que assume um papel preponderante no Guimarães Jazz deste ano: Chicago, uma das cidades que, na sequência da migração dos afro-amercianos para o norte dos Estados Unidos, durante o século XX, mais gente recebeu, e, com ela, intérpretes do jazz tradicional de New Orleans, entre os quais Louis Armstrong. Mas a cidade, através, por exemplo, da Association for the Advancement of Creative Musicians, também tem moldado o jazz contemporâneo. Essa veia moderna estará sobre o palco do CCVF, no dia 09, com o concerto do trompetista Marquis Hill. O jazz da Cidade Ventosa também vai estar em palco no dia 17, com o quinteto Delicate Charms, onde pontificam Matt Ulery, contrabaixista e compositor, que também vai dirigir as oficinas de jazz e o habitual concerto da Big Band e Ensemble de Cordas da ESMAE, no dia 11, e o violinista Zach Brock.

Levantar o véu que tapava a Europa

“Era uma lacuna grave do festival não apresentar jazz europeu”, assumiu Ivo Martins. O programador considerou que a exploração dos projetos europeus e das “suas idiossincrasias”, cada vez mais relevantes no panorama internacional, é um dos aspetos onde o festival mostra haver espaço “para se reformular, quebrar rotinas e fintar o previsível”.

Cabe à Europa abrir a 27.ª edição do festival, mais propriamente ao quarteto britânico AZIZA, a mais recente formação de Dave Holland, saxofonista com 54 anos de carreira que colaborou com grandes nomes do jazz do século XX, como Miles Davis, Thelonious Monk e Chick Corea e que participou na cena do free jazz inglês.

Mas o jazz que se vai apresentar em Guimarães não tem apenas uma geografia insular e anglo-saxónica. É também continental e germânico. O alemão Pablo Held Trio vai apresentar, no dia 10, o seu mais recente álbum, Investigations (2018), que se apoia nos princípios do bebop – corrente de jazz desenvolvida nos Estados Unidos, na década de 40 – para explorar outros territórios. Mais experimental é o projecto Random/Control, onde o trio liderado pelo pianista austríaco David Helbock utiliza mais de 20 instrumentos, entre os quais engenhos electrónicos e didgeridoo, para apresentar um trabalho influenciado por nomes do jazz como Duke Ellington, mas também por Beethoven.

Mas, no cartaz, há também espaço para um dos nomes emergentes do jazz português: com 26 anos, o acordeonista João Barradas vai apresentar o trabalho Own Thoughts from Abroad, num quarteto em que também se destaca Greg Osby, saxofonista norte-americano associado à corrente do free jazz, que também chegou a colaborar com a banda psicadélica Grateful Dead.

Para Ivo Martins, o tamanho do programa e a diversidade geográfica quanto à origem dos artistas permite à organização ultrapassar o “processo de culpa interior” que se gerava pela necessidade de, todos os anos, ter de deixar músicos talentosos de fora. “A quantidade de músicos que queria tocar no Guimarães Jazz era enorme. Quando escolhemos um, deixamos de fora dezenas ou centenas que podem ser tão bons ou melhores”, explica.

O presidente do Convívio, César Machado, enalteceu o papel das associações e da Câmara para a “relevância cultural nacional” que a cidade tem granjeado reiterou que o Guimarães Jazz é talvez a iniciativa cultural em que a cidade atingiu “o nível mais elevado dentro do seu ramo”. “Se olharmos para os grandes músicos vivos, conta-se pelos dedos de uma mão aqueles que não vieram”, disse.

As cartas brasileiras reescritas pela Orquestra de Guimarães

Dois dos concertos agendados serão o fruto das residências artísticas. Uma delas reuniu a Orquestra de Guimarães, formação que efectua residências desde 2014, e a brasileira Léa Freire, flautista que desenvolveu o projecto Cartas Brasileiras, após ter revisitado o património musical do seu país, onde pontificam estilos como a música popular brasileira, o samba e o choro.

Depois de ter colaborado há dois anos com a big band Lisbon Underground Music Ensemble e, no ano passado, com o guitarrista Nels Cline, a orquestra voltou, neste ano, a integrar um projecto que “sai da sua zona de conforto”, com uma artista cuja música é de “uma erudição e de um modernismo extremos, em termos de linguagem”, explicou o responsável pela programação da orquestra, Domingos Castro. “Não estamos a falar de jazz puro e duro. Também falamos de samba. Falamos de música tradicional brasileira. Ao longo da história, a música erudita vem muitas vezes da música tradicional”, acrescentou sobre o trabalho que vai ser apresentado no dia 14.

Antes, no dia 11, a associação portuense Porta-Jazz vai apresentar, mais uma vez, um trabalho inédito, construído em residência artística. O projecto, explicou José Pedro Coelho, saxofonista e membro fundador da associação, junta alguns músicos, nacionais e internacionais, numa residência de uma semana e também um artista de uma outra área criativa. “A experiência permite-nos alargar horizontes e fomentar a parceria entre artistas nacionais e internacionais, o que nos permite, a nós, portugueses, maior visibilidade no futuro”, disse. A proposta deste ano envolveu o cineasta Miguel Tavares e remete para a “ideia de paisagem sonora e de uma narrativa mais elaborada”, acompanhada por cinema, acrescentou o músico.

Música no recreio

Algumas das escolas da cidade vão ter música no maior intervalo do bloco da manhã, adiantou Paulo Lopes Silva, assessor da vereadora municipal para a cultura, Adelina Paula Pinto. O jazz nas escolas é uma das iniciativas previstas para este ano, fora da esfera dos concertos. “É uma forma de levar a música a estas populações mais jovens, numa disciplina que tem sido tão bem trabalhada pelo Guimarães Jazz. É uma medida que julgo de especial interesse”, considerou o responsável. Já as habituais jams vão ocupar a sede do Convívio, mas também alguns dos espaços comerciais da cidade. Outra das medidas é a criação de passes para três dias, no valor de 35 euros, e para seis dias, no valor de 65, além do passe geral, de 80. Um dos objectivos, afirmou Paulo Lopes Silva, é fazer com que, por exemplo, os visitantes fiquem mais tempo na cidade para verem mais concertos e se deslocarem a espaços, como o CIAJG.