GENTE VIGENTE | Paulo César Gonçalves

Por César Elias

Estamos de regresso. Os relatos dos nossos convidados já fazem fila no nosso catálogo. Prometemos rematar o ano com excelentes revelações.

Hoje conversamos com Paulo César Gonçalves. É verdade. O autor de “Um Outro Conto de Natal”, obra que está prestes eclodir, entrega-nos algumas confissões.

“Paulo César Gonçalves, criativo. Nasceu em Guimarães e, até ver, está vivo.

Não importa o que fez, o que estudou ou em que sanitas efectuou necessidades fisiológicas. Importará, isso sim, o que fará. O Paulo César faz-se de futuro.”

Vivido em questões da nossa cidade, rejubilado pela energia com que fuzila o seu futuro criativo, o homem dramaturgo que recusa a extenuação, existe por aí, num recôndito refúgio do berço desta pátria que flutua na jangada de pedra.

Como filho deste ermo, recuso que digam que este poeta não nos pertence. Ai de quem o diga, que meus parcos olhos, ao vivíssimo, compactuaram com o momento do primeiro petardo de seus versos.

E ainda sei que a  voz locutora de Paulo César Gonçalves já foi, outrora, rouca e tisnada por culpa, por tão grande culpa, da doença da nossa mãe madrasta. Mas parecer ser mesmo assim, definhamos todos, ou quase todos, enfermos, mas não mortos, às honras dessa demência. Estamos vivos. A boa cidade ninguém nos rouba.

E sei da luta deste escritor vimaranense. Sei que seu compromisso com o mundo está lacrado num caixão que ferve e que segura numa palma um canivete antigo com as pontas da libertação arredondadas. Mas o que ninguém sabe é que não há alavanca mais rija do que suas próprias mãos. O revólver que tem é cor de cinza, vive na sua cabeça, e é de pólvora de palavras o que lhe vulcaniza o coração.

Hoje, em exclusivo para o DUAS CARAS, GENTE VIGENTE com: PAULO CÉSAR GONÇALVES

GENTE VIGENTE: Muitos vimaranenses sabem sobre o teu trabalho, sabem que és um criativo. No entanto, todos gostávamos de saber um pouco sobre quem é Paulo César Gonçalves. 

PAULO CÉSAR GONÇALVES: Ora bem, não sei se são muitos os que sabem, mas também não é importante. Não gosto muito de falar sobre mim, nem gosto que falem sobre mim. O Paulo César Gonçalves é só um fulano que nasceu (sem pedir) voltado para o Castelo de Guimarães, numa época em que os penteados eram foleiros e cheios de laca (esses terríveis anos 80); é também alguém que gosta de pudim e que lê (não necessariamente enquanto come pudim, mas também pode acontecer) de forma compulsiva. Também escreve (asneiras, sobretudo).

GENTE VIGENTE: Sabemos que preferes olhar o futuro sem qualquer tipo de cordão umbilical ao passado. No teu trabalho, o que te faz fervilhar mais a vontade de nunca parar?

PAULO CÉSAR GONÇALVES: Eu tenho um grande respeito pelo passado, quanto mais não seja pelo facto de adorar História. A questão que se coloca, quando defendo que prefiro olhar para o futuro, é numa perspectiva de trabalho: eu não dou especial valor ao que já fiz, já passou. Não me interessam, minimamente, as honrarias, se as houver, ou andar agarrado a coisas passadas. Nem sequer acredito em mérito individual, isso é um mito. É o futuro, a possibilidade de coisas novas, que me faz(em) correr. Sou um criativo, como todos somos criativos, na verdade. A diferença, talvez, é que eu levo isso do ser-se criativo muito a sério (mais do que a mim enquanto pessoa, contribuinte, mancebo ou qualquer um desses termos formais e todos técnicos de que não gosto nada).

GENTE VIGENTE: Falando em futuro, o que podemos esperar de ti enquanto autor?

PAULO CÉSAR GONÇALVES: Livros, projectos artísticos (fora de Portugal, a correr bem), discos, solos de reco-reco…esta última parte ainda estou a aprimorar.

GENTE VIGENTE: Como autor vimaranense, qual a tua relação desde sempre até agora com a cidade?

PAULO CÉSAR GONÇALVES: Sou de Guimarães. Adoro a cidade, mas não por qualquer razão em especial: sou vimaranense, como sou português, ou europeu, por fatalidade do destino. Não escolhi nada. A minha mente é do mundo, ou do universo, ou assim. Não gosto de bairrismos, a não ser pelo lado místico da coisa. Não considero que Guimarães trate bem os seus autores, para ser sincero, mas talvez encontremos esse fenómeno, no que toca a autores de determinada terra, em qualquer outro lugar de Portugal. “Santos da casa não fazem milagres” ou “Guimarães, má mãe, boa madrasta”, queres escolher?

GENTE VIGENTE: Uma frase, uma opinião, uma “conselho” para todos os criadores vimaranenses?

PAULO CÉSAR GONÇALVES: Cumpram-se, e entendam o cumprirem-se como a exacta medida capaz de preencher os vossos anseios e as vossas lutas. Cumprir-se não andará longe do ser-se verdadeiro perante a (vossa) essência: sem modas, sem assimilações marteladas, sem rendições à máquina vigente.