Pegadas

O Duas Caras fez 2 anos e, por isso, as primeiras palavras do artigo de hoje são para a Catarina Abreu. A Catarina é o rosto do projecto, foi quem me convidou para escrever e é a ela que agradeço esta possibilidade. Neste espaço sempre escolhi o que escrevia e em que direcção queria seguir. Por tudo isto, agradeço à Catarina a oportunidade e desejo que o projecto que ainda está a dar os primeiros passos se mantenha por muitos e bons anos e se aguente no mundo da comunicação de forma livre e coerente. Parabéns, Duas Caras!

Esta semana foi apresentada publicamente a pegada ecológica de Guimarães e ficamos a saber que é de 3,66 gha (hectares globais) enquanto a pegada ecológica a nível nacional é de 3,94 gha. Ficamos a saber que Guimarães tem uma pegada inferior à média nacional.

Este estudo pretende contribuir para que os municípios envolvidos possam desenvolver políticas ambientais sustentáveis. Dessa forma, é medida a Pegada Ecológica que se mede através do uso da terra cultivada, da dimensão e uso florestas, das pastagens e das áreas de pesca que fornecem recursos e absorvem resíduos em cada município. É também medida a Biocapacidade medindo a área biologicamente produtiva disponível para regenerar esses recursos naturais, ou seja o que necessitamos para colmatar as necessidades individuais.

Depois deste estudo e das suas conclusões, o caminho é fazer uma gestão sustentável do território, o que devia acontecer em todo o território nacional, mas como sabemos o processo inicia-se de forma gradual começando nos concelhos interessados em estabelecer políticas ambientais.

Estamos todos conscientes que Portugal está em défice ecológico desde 1961, isto é, consome mais recursos do que aqueles que tem ao seu dispor. Podemos dizer, assim, que a sua biocapacidade é menor que a sua pegada ecológica.

Nas conclusões que foram apresentadas na segunda-feira, dia 29 de Outubro pelas 15:00, no Laboratório da Paisagem, afirma-se que o primeiro factor que contribui para o aumento da pegada de cada vimaranense é a alimentação, e em segundo lugar está a mobilidade.

No caso da alimentação, que representa 29% da pegada ecológica, ficamos a saber que se deve ao facto de consumirmos muito peixe e muita carne. Será pois possível repensarmos os hábitos alimentares para que possamos diminuir o consumo de proteína animal e desta forma diminuirmos o impacto. Diminuir não quer dizer que devemos todos optar pela alimentação vegetariana ou vegan. Devemos encarar as mudanças alimentares como forma de atingir um modelo de vida mais saudável que contribuirá também para um ambiente mais sustentável.

Não quero que concluam que as mudanças só vão ocorrer pela iniciativa individual, porque como todos estamos conscientes que as opções políticas influenciam e muito na transformação e nas alterações climáticas a que assistimos e sentimos na pele.

Era importante que os municípios e a administração central fossem capazes de estabelecer planos concretos sobre o desperdício alimentar, proposta dos Verdes, para que possamos comprar apenas o que necessitamos e não o que as grandes empresas nos impõem.

É necessário que os municípios sejam capazes de promover o consumo local, comprando os bens alimentares necessários para as suas cantinas nos produtores locais, impedindo o desperdício, impedindo as longas viagens que os alimentos fazem até aos nossos pratos, promovendo a economia local e a qualidade dos alimentos que chegam mais frescos. Para isso, a CDU em Guimarães propôs e propõe que as cantinas escolares, da responsabilidade do município, voltem a ter a suas próprias cozinheiras, que confeccionem nas próprias instalações as refeições adequadas à sua comunidade escolar e que sirvam de motor da economia local.

Infelizmente continuamos a não ser ouvidos e as cantinas continuam concessionadas. Também continuam concessionados os TUG, transportes urbanos de Guimarães, e ao longe, bem ao longe, ouvimos falar de um plano da mobilidade. E mais uma vez a CDU tinha razão, é necessária uma nova visão de mobilidade para o concelho para que a coesão territorial seja uma realidade, e que contribuirá para que a pegada ecológica diminua.

O peso dos transportes, da mobilidade no concelho, na pegada ecológica corresponde a 21%. Talvez por isso o senhor presidente Bragança anunciou, à parca plateia que assistia a esta iniciativa, pela enésima vez, que iria reforçar a frota municipal com a aquisição de veículos eléctricos.

E assim, mais uma vez, ficamos a saber que o plano de mobilidade para Guimarães deve demorar mais uns tempos para ver a luz do sol. Porque para além da 1.º fase da ecovia estar já concluída continuamos com uma mão cheia de nada.

Os vimaranenses continuam sem opções, a não a ser a opção preferida do senhor presidente da câmara, que se diz tão defensor do ambiente, continuamos a depender da chave do automóvel próprio no bolso.

Mariana Silva, 36 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.