Reserva de Valor, por João Pedro Pinto

De que modo pode a Web Summit contribuir para as indústrias ditas tradicionais, tais como o têxtil, o calçado ou mesmo a agricultura?

Ainda no rescaldo do maior evento empresarial em Portugal, onde na última semana participaram cerca de 70 mil pessoas, para além dos 2600 jornalistas e 1500 investidores de 159 Países diferentes, parece-me pertinente refletir um pouco no impacto que este evento pode ter para todos aqueles que não sendo entusiastas da tecnologia, são empresários e profissionais do setor industrial, agrícola ou mesmo de serviços, por mais que pareça não existir correlação.

Já se tornou habitual nesta semana do ano, um dos assuntos do dia ser a Web Summit. Em conversa com algumas pessoas tenho-me apercebido que, excluindo todos aqueles que constituirão o principal target do evento, tais como os empreendedores e profissionais do setor tecnológico e apaixonados pela inovação em geral, sinto alguma indiferença ou mesmo desconfiança do real impacto que este evento tem na economia portuguesa e suas empresas, por isso decidi escrever sobre este tema.

O impacto do evento deve ser medido a dois níveis, o turístico e o impacto económico no setor empresarial. Naturalmente que o primeiro é sentido de imediato, uma vez que grande parte dos 70mil participantes são maioritariamente estrangeiros, o que resulta numa taxa de ocupação hoteleira superior a 80% em Lisboa, em plena época baixa e a meio da semana, o que é desde logo um excelente indicador.

No entanto parece-me ser o segundo aquele de maior interesse pela riqueza que gera no médio/longo prazo. Por um lado, porque atrai a Portugal algumas das principais empresas mundiais: Microsoft, IBM, Mercedes, Volkswagen e muitas outras, por exemplo, esta última anunciou na ocasião o seu primeiro centro de desenvolvimento fora da Alemanha e irá contratar para isso 300 pessoas em Portugal. Depois porque atrai “capital”, esse bem muitas vezes escasso e que as empresas se queixam de ser caro e difícil de angariar, são centenas de investidores, capitais de risco, private equity, business angels, investidores de todo o género que reúnem com empresas portuguesas dentro do evento e à margem dele. Mas também porque nos coloca no mapa enquanto País tecnológico. Ao contrário das anteriores revoluções que chegaram a Portugal com algumas décadas de atraso, podemos pela primeira vez acompanhar esta revolução digital em “tempo real”. E porque com a digitalização da economia, empresas de software já não são só aquelas que desenvolvem software de gestão, hoje este é um tema transversal a todas as atividades económicas, capaz de criar novos modelos de negócio para os produtos de sempre, criando assim novas formas explorar o mercado. Bom exemplo disso é a Farfetch: com todo o sucesso que lhe conhecemos e que afinal é “apenas” uma loja virtual de moda, sobretudo têxtil, que inova não pelo produto que vende mas sim na forma como o faz, pelo seu modelo de negócio disruptivo, outro exemplo é a Undandy que permite ao cliente comprar sapatos personalizados feitos à sua medida através de um website, ou a Agriw que utiliza a inteligência artificial para sugerir aos responsáveis de explorações agrícolas ações concretas de forma a otimizar a rega, fertilizantes, colheitas, etc.

Estas e muitas outras, são empresas que produzem/comercializam produtos seculares e que através da tecnologia estão a criar e a transformar a forma de se fazer negócio. Se isto já é o presente, parece-me claro o impacto positivo que a Web Summit tem no ecossistema empresarial e o quão transversal ele pode ser.

João Pedro Pinto (https://www.linkedin.com/in/joaopinto1/), 32 anos, é licenciado em Ciências Económicas e Empresariais.