Saudades das férias grandes

A propósito de uma viagem para fora da União Europeia, onde ainda se paga o roaming, passei alguns dias sem usar redes sociais.

No dia-a-dia não nos damos conta do facto do quão alienados andamos com o nariz metido no telefone. Acordamos e pegamos no telefone, a cada momento do dia em que não estamos a fazer nada olhamos para o telefone e adormecemos a mexer no telefone.

Dá-se por vezes o inconveniente de estarmos a falar com pessoas e a meio de uma conversa pegarmos no telefone e olharmos para o telefone enquanto a outra pessoa está a falar.

Os telemóveis na sua versão telefone ou agora um pequeno aparelho multimédia, além de trazer grandes vantagens para quem procura entretenimento a todo a hora, trouxe também alguns problemas. Persiste a ideia de que não há desculpas para não estarmos disponíveis ou contactáveis a qualquer hora. Somos também hiper-estimulados pelo telefone, onde há sempre escândalos, novidades, cusquices e irritações para se ter. As regras de boa educação quando estamos com outras pessoas ficaram de lado e a nossa atenção encontra-se permanentemente dividida.

É raro o tédio e é pena. O tédio permite-nos pensarmos livremente e sem estímulos, dá azos a sermos mais criativos e auto-conscientes. É quando estamos entediados – isto é nos damos ao luxo de passarmos tempo sem estímulos – que desligamos o piloto automático em que nos encontramos sempre e procuramos soluções para problemas do quotidiano, ou então, deixamos a nossa criatividade correr livremente.

Lembram-se das férias grandes? Eu lembro-me. E lembro-me bem do sentimento de tédio, de não ter nada para fazer. Lembro-me de estar deitada no chão, a olhar para o tecto e de estar chateada porque não tinha mais nada para fazer. Ah, ficar chateada por não ter nada para fazer, o luxo que agora parece crime.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.