Tradição viva

Chega Novembro e o calendário turva-se. Vísivel e focado, apenas o seu dia 29 e com o Pinheiro o arranque das festas Nicolinas, manifestação maior do mais bairrista Vimaranensismo.

Costumo brincar com quem as questiona na profunda infelicidade inconsciente de existir sem as sentir.

O início da resposta é quase sempre com a antítese das festas populares, desde logo pelo período do ano. Em Guimarães celebra-se São Nicolau, padroeiro dos estudantes. E não tem rival com outros santos que se fazem celebrar em Junho, Julho ou Agosto, quando é fácil porque o tempo convida ao arejo. Em Guimarães, celebra-se a tradição no mais cortante frio de final de Novembro, à chuva e ao vento se a tanto quiser S. Pedro provar Nicolinos e futricas. É uma festa de pêlo na venta de homens e de mulheres.

Igualdade de género sem paralelo na sociedade abduzida pelo politicamente correcto embora marcada de forma indelével pelo simbolismo da dicotomia que tem dado humanidade ao Mundo desde os primórdios.

Em Guimarães e nas Nicolinas, celebra-se a tradição com profundo significado. E neste número que marca o arranque das festas e que congrega maior participação, começa por se mover o tempo pelo cronométrico rufar de caixas e ressoar de bombos.

E sente-se, como em poucos momentos nos é dado o privilégio de sentir, aquilo que nos constrói os ossos do esqueleto colectivo de que fazemos parte.

Logo se seguem as Novenas, em todos os dias das festas; as Posses que terminam em Magusto; o fabuloso e sempre único Pregão acompanhado em cortejo pelo seu próprio toque; as Maçãzinhas, de inspiração romântica e que convida de forma galante as raparigas a tomarem o centro das festas no dia de S. Nicolau; as Danças Nicolinas e sua “fidedigna” representação da realidade comunitária; o Baile Nicolino e ainda as Roubalheiras, um dos números mais simpáticos e cujos “roubos” são por vezes motivo de grande admiração pela audácia que exigem.

Que a tradição viva por mais um ano. E que a tradição vivendo construa os anos seguintes. Para que as gerações que estão por vir tenham fundação sólida no seu passado que vamos construindo hoje.

Não há arte que exprima com suficiência aquilo que sente quem sente Guimarães pelas Nicolinas.

Vivam as Nicolinas! Viva Guimarães!

Alexandre Barros Cunha, 34 anos, engenheiro civil de formação abraçou a gestão de operações por vocação. Tendo liderado a JSD em Guimarães e no distrito, é hoje deputado municipal, vice-presidente do PSD Guimarães e membro do Conselho Nacional do PSD.