Movimento Poético #6

Por César Elias

Monte Cavalinho

Um dia verás uma árvore
Uma árvore por entre as árvores
Um dia esquecerás as sombras, o calor, o céu e as miragens
Um dia verás
Verás uma árvore

Verás que será só tua, a fantasia
No momento em que pararás, estanque
Pensarás que sonhas um devaneio
Ou um calvário, ou uma paixão

Ficarás sem saber pensar
Sem querer acreditar
Nos talhos e curvas híbridas e perfeitas da tua árvore
Verás, pois
uma arvore

Verás nela o erótico movimento de nádegas
O exótico que te perfurará o olfacto abrotado
Verás a o ziguezague de um peito
A sinuosidade dos seios que parecem querer esconder-se de ti, sorrindo
Verás os braços que se repetem, que reflectem a luz que te encobre o óbvio
Baloiçando até ti, fugindo de ti, deixando-te ainda assim, estanque
Verás amor

Olharás sempre. Curiosidade
Ignorância
Saberás quem és
Saberás apenas que olharás por entre pernas que se cruzam como notas
Meio certas, meio tortas
Olharás para que possas entender a dança que te escapa dos pés
Verás as costas como dunas, duas mãos como nenhumas
Quem és tu, árvore
Reclamarás ao chorar

Um dia verás uma árvore
Uma arvore por entre as árvores
Um dia esquecerás os nomes, as faces, as paridades
Um dia verás
Verás uma árvore

*rubrica cujo título é inspirado em António Gedeão