O avanço do populismo

Na Europa mais a leste, sob o pretexto de conterem a vaga de imigrantes que pretendem alcançar o nosso continente, alguns países tomaram medidas condicionadoras das liberdades que caracterizam as democracias ocidentais. Os seus governantes impuseram, subtilmente, regimes autocráticos depois de sufragados pela maioria do seu eleitorado, temente dos “invasores”, dando claros sinais de atitudes xenófobas e impondo medidas com essa matriz e que a democracia rejeita. Na Hungria, na Áustria, na Itália, no sul da própria Alemanha e noutros países, este paradigma tem vindo a expandir-se criando problemas vários na vida dos seus cidadãos.

O exemplo recente dos acontecimentos em França são um claro sinal da fragilidade das democracias tradicionais. A Espanha, por sua vez, mostra-nos que, como que do nada, um partido xenófobo condiciona, já, a política da Andaluzia, proveniente de eleições livres e democráticas. Estes dados permitem-nos concluir que as democracias estão em risco. Aproveitando as regras democráticas e legitimados por estas, partidos de extrema direita sobem ao poder, pondo em causa a própria democracia. As políticas neoliberais que se instalaram não cuidaram dos seus cidadãos, fragilizaram a pequena e média burguesia e deixaram à sua sorte os mais desfavorecidos. Uns e outros sentindo-se inseguros e sem esperança nem confiança em quem os representa, desesperados, entregam-se a quem se proclama como defensor dos seus direitos e lhes promete uma réstia de esperança. A América de Trump é disso o exemplo mais marcante, percursor instável do que nos pode esperar.

As próximas eleições europeias podem e vão trazer-nos resultados inesperados e, com eles, provocar uma convulsão no seio da União Europeia e no ‘modus vivendi’ dos seus cidadãos. E sentirão, sentiremos saudades dos Homens respeitados e de craveira mundial que, imbuídos dos mais nobres valores, souberam retirar os seus países dos efeitos avassaladores de uma guerra terrível que assolou a Europa, tudo e todos. Os tempos mudaram e, salvo um ou outro governante, a larga maioria não tem a dimensão daqueles e daí esta convulsão que, aliada a fenómenos globais, nos anuncia um futuro incerto para todos, muito particularmente para os mais jovens. Aguardemos, com expectativa, pelas próximas eleições europeias e, então, constataremos a vontade dos europeus relativamente ao caminho que querem trilhar no futuro.

O BREXIT

Todos os povos, e particularmente os europeus, reconhecem o passado histórico, o poder e a dimensão plural do Reino Unido. Também sempre foram bem percetíveis os conceitos egocêntricos do seu passado “glorioso”, a sua sobranceria perante o mundo e a imagem que pretende demonstrar de se bastar a si próprio.

No referente às suas posições políticas mais recentes pode concluir-se que os britânicos nunca estiveram de “alma e coração” na União Europeia. Cultivou um distanciamento, ultimamente desafiador, e acabou por não resistir a propor aos seus eleitores um referendum visando a sua saída da União Europeia.

Os governantes mais conservadores tomaram esta decisão convictos de que tal lhes proporcionaria a força política que iam perdendo. Calcularam mal o pensamento e a vontade do seu povo, que lhes deu o voto. Vê-se agora que daí resultam consequências complexas, geradoras de mais dificuldades do que vantagens, obrigando a Sra. May a peregrinar de Londres a Bruxelas e vice-versa, para salvar o possível do seu projeto.

Os problemas são tantos para o Reino Unido quer para a União Europeia, que o futuro continua incerto, com a sua população profundamente dividida e descrente. De facto, os defensores do BREXIT não contaram com os “ventos” políticos que hoje sopram dos Estados Unidos, tornando ainda mais complexa a aventura isolacionista a que se abalançaram. Decisões políticas desta dimensão ou são bem ponderados ou podem ter maus resultados, com consequências preocupantes para os cidadãos, como parece vir a acontecer.

Guimarães, 4 de janeiro de 2019

António Magalhães