O melhor para o Homem

Tenho ouvido muito falar em igualdade: de direitos, de género, salarial, de feminismo, de sexismo, de extremos…E também me tenho apercebido que muita gente não sabe muito bem o que é o feminismo. O feminismo defende a igualdade entre géneros. Feminismo é de todos e não só das mulheres. Feminismo opõe-se a um sistema patriarcal e não aos homens. Feminismo poderia chamar-se igualdade e já facilitava tudo não era? Mas não se chama, precisamente porque a “luta” iniciou-se contra o dito sistema patriarcal, o mesmo que diz que os homens: são sempre fortes, não choram, vestem de azul, gostam de carros e bolas, de brincar às lutas, demonstram a sua virilidade dirigindo piropos às meninas/mulheres, têm “vontades” e apetite sexual diferente e mais exacerbado que as mulheres, e que por isso devem ser satisfeitos por estas, que enviam nudes não solicitadas a mulheres porque “claro que elas vão gostar”; recebem mais do que as mulheres com as mesmas funções, são os chefes de família, a cabeça do casal; trabalham enquanto as mulheres educam os filhos (neste campo podem até exercer “disciplina” porque as mulheres não conseguem) e cuidam da casa (alguns até “ajudam” a esposa com algumas tarefas);

É isto realmente o que é ser-se homem? É isto o melhor para o homem? É isto o melhor que os homens podem ser?

Conheço muitos homens que não concordam com esta visão sexista. Conheço alguns que concordam. E conheço muito poucos que realmente façam algo para acabar com isto. E da mesma forma, conheço muito poucas mulheres que façam algo para acabar com isto.

É isto que queremos passar para os nossos filhos? É desta forma que os queremos educar? Quais são as nossas intenções em relação ao feminismo, no que toca à educação dos nossos filhos?

As minhas são claras: eu quero que as minhas filhas possam crescer num ambiente igualitário. A todos os níveis. Que possam e tenham a capacidade de se insurgir e agir perante desigualdades. E claro, mais uma vez não me refiro apenas à desigualdade de géneros.

Como é que eu pretendo fazer isto? Praticando a igualdade em casa, no trabalho, no carro, com todos. Há um valor da Parentalidade Consciente que espelha bem isto: o igual-valor (ou equidignidade) que basicamente defende que as crianças têm o mesmo valor que os adultos; as suas vontades, desejos, gostos, necessidades, sentimentos, emoções, têm o mesmo valor que as nossas. Isto não quer dizer que todos os seus desejos e vontades devem ser atendidos, mas podem e devem ser reconhecidos como tão importantes quanto os nossos. E isto leva-nos a outro valor da PC: o respeito pela integridade da criança (já referido na crónica o beijo da discórdia).

Convido-vos a reflectirem um pouco sobre isto:

Como é que um homem que quando era criança ouviu vezes sem conta coisas como – “um homem não chora”; “homem que é homem põe dinheiro em casa”; “tratar da casa é coisa de mulher“; “brincar às casinhas, com bonecas é coisa de menina”; “as mulheres gostam é de homens fortes, que não dêem parte fraca”; “não falas de mulheres, não mandas piropos, não comentas o corpo da miúda que passou, deves ser gay”; “não confrontas o outro que tem uma opinião diferente da tua, ou não és agressivo ou violento, és fraquinho, e todos os outros te vão gozar e por de parte”; ”um não de uma mulher é quase sempre um sim”; “ elas gostam é disso”; “essa cor é de menina”… – É, se comporta e se sente?

E como é que uma mulher que quando era criança ouviu coisas como – “Os rapazes/homens são mesmo assim, não ligues!” quando a sua integridade física e emocional foi desrespeitada; “o teu príncipe encantado vai aparecer para te salvar” (como se precisássemos de ser salvas de alguma coisa, e mesmo que precisássemos, provavelmente não seria um homem que chamaríamos, a não ser o nosso pai ou irmão); “tens de ter sempre a casa arrumada”; “os rapazes estão lá fora a jogar à bola, fica aqui dentro a brincar com as bonecas, ou ajuda -me na cozinha”; “o mundo é dos homens”; “esse emprego não é para mulheres”; “se está a pensar engravidar, não a podemos contratar”; “preferimos os homens para essa função, porque não faltam ao trabalho para cuidar dos filhos”; “com um bom decote ou uma mini saia consegues tudo”; “com essa roupa e a dançar dessa maneira, estavas à espera de quê?” – É, se comporta e se sente?

Em que mundo é que estes dois lados se cruzam? Que tipo de relacionamento têm estas duas crianças durante a sua infância e na idade adulta? Ficarão ou não frustrados os homens por perceberem que afinal não têm as características que as mulheres apreciam? Ficarão ou não frustradas as mulheres por perceberem que afinal não há príncipes encantados, e que têm de se virar sozinhas, contra todo um sistema montado e mantido em todos os contextos da sua vida?

Muitos de vocês irão dizer que não vivemos nesse mundo, que isso foi há muitos anos… Será? Vivemos sim. É só questionarem os pais que querem compartilhar a licença de paternidade com as mães e vêm esse direito vetado pela entidade patronal, por ser algo tipicamente concedido a mulheres; o mesmo se passa com as partilhas de responsabilidade parental. Questionem um adolescente que gosta de dança, que não goste de humilhar ou desrespeitar as amigas, que não tenha comportamentos tipicamente masculinos, se se sente integrado diariamente junto dos seus amigos.

Questionem as mulheres que estão completamente exaustas por terem de trabalhar fora e dentro de casa, porque o marido até ajuda em algumas tarefas, e por isso se considera um óptimo marido e pai. Questionem as mulheres que, entrevista após entrevista de emprego, não são selecionadas por terem família ou por pensarem em constitui-la. As mulheres que já foram assediadas, das mais diversas formas, durante a sua infância, adolescência e adultez – eu pessoalmente, não conheço nenhuma mulher adulta que nunca tenha sido assediada em alguma fase da sua vida. E isto é assustador, e não pode acontecer. E é responsabilidade de todos.

Precisamos, todos, de acabar com esta masculinidade tóxica, que é tão bem ilustrada no anúncio da Gillette (e que aconselho todos a visualizarem). Cabe a todos, sem excepção, homens e mulheres intervir e responsabilizarem-se por acabar com ela. E aqui tocamos noutro valor da Parentalidade Consciente – a responsabilidade.

Precisamos sobretudo, que os homens responsabilizem outros homens. Precisamos de educar homens que responsabilizem outros homens. Precisamos de educar crianças responsáveis. Precisamos de educar pessoas em igualdade. Precisamos de educar para o melhor que o homem pode ser.

Sónia Lopes, 35 anos, é Psicóloga Clínica, Hipnoterapeuta, Coach e facilitadora de Parentalidade Consciente. Fundadora do SeMente – Centro de Desenvolvimento Pessoal, sempre se dedicou ao desenvolvimento pessoal (seu e dos outros) e hoje abraça a mais desafiante profissão de todas: ser mãe. Irá partilhar connosco a sua visão acerca da Parentalidade.