Nota de Homenagem a Antero de Quental (1842-1891)

Poeta e Pensador português

Segundo a literatura e enciclopédias, etc. – Antero de Quental foi o expoente da intelectualidade portuguesa. Todavia, ele foi muito mais… foi seguramente o intelectual mais revolucionário até aos dias de hoje.

Filho de uma família abastada – jurista, sem nunca exercer; trocou a profissão de advogado pela de operário tipógrafo, primeiro em Lisboa, depois em Paris. Influenciado pelos ideais de Proudhon, quis conhecer, na prática, tanto em Portugal como em França, o que era o mundo operário.

Criou com José Fontana, Batalha Reis, Oliveira Martins, etc., organizações operárias. Antero tinha um certo desprezo pelos bens materiais. Para ele, a verdadeira riqueza estava nos ideais e na aplicação dos mesmos a favor dos que mais sofriam com as desigualdades profundas: a miséria, a fome, o analfabetismo, as doenças, o obscurantismo, etc.

Antero defendia a revolução com “o mínimo possível de violência e o máximo possível de bem estar comum; a violência só atrasa a marcha da humanidade”.

Pedro Teixeira da Mota dizia sobre o pensador “verticalidade e ética, santo vivo; muito padeceu porque muito pensou; muito amou porque muito compreendeu”, entre outras coisas. Era um génio, adverso das religiões e deuses inúteis. Desprezava a vaidade, era o “campeão da simplicidade”. Eça de Queirós, quando falava de Antero no seu grupo de amigos, dizia: “ ele é o melhor de nós todos”!

Um homem tão bom e tão generoso e com tanta gente a querer-lhe mal, nomeadamente, os seus antípodas da intelectualidade; da ideologia; do pensamento e da reflexão, etc. Desta gente fazia parte o clero, a monarquia, nobreza, vassalos e o caciquismo do mais amorfo que há memória. Toda esta gente do pior – difamavam-no, dizendo, “ele quer destruir a Nação, a Igreja, a família e instalar em Portugal a anarquia” – vejam bem.

Antero de Quental teve dois grandes desgostos: a morte de um casal amigo, cujas duas filhas foram assumidas por Antero no sentido de as proteger e educar. Para o efeito, comprou uma casa em Vila do Conde (hoje, Casa Museu Antero de Quental). Ao fim de uns anos, as meninas são retiradas por familiares mais próximos. (Havia rumores de que os familiares, como eram pobres, tinham inveja das rapariguinhas seguirem os estudos!)

Ao ver os familiares roubar a felicidade às rapariguinhas e sem poder fazer nada, Antero de Quental entra em depressão. Entretanto, morre D. Luís (o rei mais culto e mais intelectual que Portugal teve). D. Carlos senta-se no cadeirão do poder e tudo se inverte lentamente a caminho da ditadura pela mão do chefe do governo, Serpa Pimentel. Com esta alteração radical na vida social, política, cultural etc. – depois de terem sido proibidas as conferências do casino, Antero e os companheiros mais próximos, encontram a marcha para o desenvolvimento do país, a todos os níveis bloqueada, por forças religiosas e monárquicas, do mais retrógrado que possamos imaginar.

Desgostoso com esta situação, recusou viver mais numa sociedade constituída por instituições do mal, que apagavam pela força bruta toda luz vinda de mentes brilhantes. O pensador e poeta suicida-se um ano depois da morte de D. Luís.

Quando Manuel Laranjeira (1877-1912) soube da morte de Antero, diz: ”Tudo o que é génio nobre suicida-se; tudo o que é canalha triunfa”! (Este Manuel Laranjeira, grande figura da cultura, acaba também por se suicidar em 1912).

Admira-me muito, a maioria dos “esquerdas”, com tiques de coisas e tal… terem como matriz ideológica, pelo menos num passado recente, referência de alguns dos maiores ditadores do século XX – e não Antero de Quental! Não conheceriam a figura? Talvez!

As ditaduras não vêm de pensadores nem de sábios, pois não? Obviamente que vêm de ditadores! O medo dos ditadores e do tecido caciqueiro é perderem o poder, quaisquer que ele seja! Este último parágrafo remeter-nos-ia para uma análise profunda da natureza humana!

António Alvão, Reformado e militante da luta não abandonada.