Além da dança: a nona edição do GUIdance é um encontro com outras artes e não só

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Fevereiro chegou, e com ele a dança. Neste ano, o GUIdance quebra as fronteiras da dança em busca de territórios onde possa coexistir com o teatro, com a música, com a literatura, mas também com a robótica. Até 17 de fevereiro, o festival apresenta seis estreias absolutas e duas nacionais num total de 11 espetáculos. O vimaranense Victor Hugo Pontes é o coreógrafo em destaque, com a apresentação de duas obras onde a instabilidade é permanente.

Por Tiago Mendes Dias

Neste ano, a dança vai-se expandir para além da própria pele. A ideia é cruzar-se com outros territórios criativos; cruzar-se com o teatro, com a música e com a literatura, mas também com a robótica e as artes marciais. Já consolidado no panorama cultural vimaranense, e também nacional, este movimento perpétuo de corpos que é o GUIdance vai à procura de algo novo, embora sem esquecer a imperfeição da condição humana: nas coreografias, haverá angústia, fraternidade e também reflexão sobre as diferenças de género. Num cartaz com 11 espetáculos em 11 dias, Victor Hugo Pontes é a figura de proa. Depois de já ter aberto a edição de 2016, com Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a, o coreógrafo vimaranense vai abrir novamente o festival, já nesta quinta-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor.

 

Créditos: José Caldeira

 

Teatro coreografado ou dança de personagens?

O festival vai abrir com Drama, uma peça em estreia absoluta que acaba por ter pontos de confluência com aquela que há três anos abriu o GUIdance. Na altura, Victor Hugo Pontes inspirou-se na peça de teatro A Gaivota, escrita pelo russo Anton Tchékov e publicada em 1896, para criar uma obra onde os bailarinos se transformavam em personagens para contarem uma história somente através dos corpos, nunca de palavras. Para a edição deste ano, o artista voltou a criar dança a partir do teatro. Fê-lo a partir da obra Seis personagens à procura de um autor (1921), escrita pelo dramaturgo italiano Luigi Pirandello.

“O que eu faço aqui é tirar as palavras do Pirandello. A narrativa continua, a cronologia continua, os personagens e o diretor também estão lá, só que não tem palavras. Tem corpos. Eu tento fisicamente e coreograficamente transmitir a história e o drama da vida deles, postos em cena”, resumiu o coreógrafo, durante o ensaio de terça-feira.

A dança-teatro ou o teatro-dança de Victor Hugo Pontes vai contar uma história de “dor, sofrimento e perda” com movimentos físicos expressivos, que traduzem a vontade dos bailarinos (ou serão atores?) em se escaparem da história que lhes foi escrita. “Há um expressionismo exagerado, exatamente como se tivessem à procura do corpo ideal para fazer aquele personagem. Uns querem reconstruir a história, outros querem fazer a história como foi, outros querem acrescentar uns capítulos novos, porque não aconteceu e eles gostavam que tivesse acontecido dessa forma”, explicou o artista.

Os bailarinos estão, porém, aprisionados na narrativa que lhes destinada, algo que fica bem patente numa dos excertos da obra. “Há um momento muito interessante, em que um personagem quer ir embora e outro diz: “Ele não consegue ir embora. Ele nunca vai embora, porque está escrito que não vai embora”. O bailarino tenta sair do palco e é projetado sempre para dentro”, realçou.

Drama não é, contudo, uma tentativa de exprimir uma qualquer realidade que marca o quotidiano de hoje. É mais uma reflexão sobre a origem das ideias e das personagens e sobre a relação entre a arte e a vida. “Aqui a questão é mais quem imita quem: a ficção imita a realidade? A arte imita a vida ou a vida imita a arte?”, sugeriu.

Mas o trabalho de Victor Hugo Pontes vai subir ainda mais uma vez ao palco do CCVF, no dia 13, para uma remontagem de Fuga sem fim, espetáculo pela primeira vez apresentado em 2011. Se em Drama, a instabilidade tem origem no colete de forças que impede as personagens de saírem de si próprias, na segunda peça resulta precisamente do oposto: os bailarinos encenam uma situação de fuga permanente, acompanhados pelas imagens do fotógrafo João Paulo Serafim e pela música de Joana Gama, Rui Lima e Sérgio Martins. “Estamos a fugir das mais variadas coisas, seja de nós mesmos ou dos outros. É uma fuga exterior ou interior”, observou o coreógrafo.

Dançar ao som de David Bowie… ou de Mão Morta

O GUIdance vai abrir com teatro e encerrar com música. Os protagonistas do último dia são o coreógrafo e bailarino escocês Michael Clark, com praticamente 40 anos de carreira, mas também os músicos que inspiram a peça to a simple, rock n’roll… song, que se vai estrear em solo luso. A sua companhia homenageia o minimalismo do pianista francês Erik Satie, o punk nova-iorquino de Patti Smith e o legado artístico de David Bowie, num espetáculo com que ainda alude à moda e às artes visuais.

Mas não é preciso esperar até dia 17 para a música ecoar entre os movimentos dos bailarinos. Logo no segundo dia do festival, o som dos Mão Morta vai chegar à Fábrica ASA num espetáculo coreografado por Inês Jacques. Para António Rafael, um dos membros da banda de Braga, a peça No fim era o frio é uma tentativa da banda se aventurar por “zonas de maior desconforto” ao fim de 35 anos de carreira. De 10 em 10 anos, gostamos de pôr a cabeça a prémio. Fizemo-lo com o Muller no Hotel Heissischer Hof, em 97, com os Cânticos de Maldoror, em 2008”, lembrou, durante a apresentação do festival, em Dezembro.

A banda escolheu trabalhar com Inês Jacques, devido à coerência dos universos estéticos de ambos, e vai apresentar temas originais em palco, embora sem ser os Mão Morta. “Não vai haver uma banda. Há duas partes que se juntam e que passam a ser um todo”, reiterou.

A música, mais propriamente o hip hop, é também parte da outra estreia nacional do GUIdance. No dia 09, a companhia Wang Ramirez, constituída por Honji Wang e Sébastien Ramirez e residente em França, vai exibir Everyness, uma peça que expressa vários tipos de relações humanas, não só através da música, mas também de campos que estão para além da arte, como as artes marciais.

Também há espectáculos para as famílias

A edição de 2019 conta ainda com mais quatro estreias absolutas: anesthize, de Maurícia Neves, no dia 09, Fraternidade I + II, uma obra da companhia Útero, onde a dicotomia entre masculino e feminino é protagonista, no dia 14, Lento e Largo, uma peça de Jonas & Lander onde o mundo da robótica é explorado, no dia 15, e ainda Dos suicidados – o vício de humilhar a imortalidade, uma coreografia de Joana von Mayer Trindade e Hugo Galhim Cristóvão, inspirada na obra do escritor modernista Raúl Leal, no dia 16.

Uma das novidades do festival é a presença inédita de dois espectáculos vocacionados para as famílias: Um ponto que dança, de Sara Anjo, para maiores de três anos, no dia 09, e Oceano, de Alinhoa Vidal, para crianças entre os seis meses e os dois anos, no dia 16.