A coragem do Papa Francisco

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Fui sempre um admirador atento da doutrina do Papa Francisco. Assumi-o há cerca de dois anos, num texto publicado aqui, no “Duas Caras” e, nele, relevei o que já então permitia perceber da dimensão da inovadora mensagem doutrinária do Sumo Pontífice. Deixava adivinhar a sua visão e postura, partilhando com o mundo a esperança de ir tão longe quanto possível na genuína defesa dos valores da religião Católica que pontifica. Nas suas homílias, bem como nas encíclicas e outros documentos de sua autoria, foi-nos incutindo a certeza de que aprofundaria os valores da fé Cristã. Interpretou-os à luz dos comportamentos sociais dos nossos dias, sem os descaracterizar, na senda do que fez Jesus Cristo e os Apóstolos de ontem e de hoje.

No início do seu pontificado confrontou-se com um sem número de obstáculos, muitos deles conflituantes com a genuína doutrina que professa e defende, pelos quatro cantos do globo. No seu ainda curto magistério, compreendeu que a sua interpretação do Evangelho não agradava a vários membros do Clero, os quais publicamente se lhe opunham. Esta oposição dos seus detratores assentava num conjunto de comportamentos e benesses que se opõem à transparência e Verdade devidas à Igreja Católica e, particularmente, ao Clero que as deve servir, na visão do Papa atual.

O Papa Francisco acabou por tomar consciência da dimensão dos problemas, comuns a tantos e tantos dos seus súbditos, desde a mais alta hierarquia da Igreja até à paróquia ou seminário mais recônditos e assumiu que urgia agir. Era preciso pôr cobro à perversão alienante traduzida em abomináveis práticas e exemplos que lhe foram chegando. Admitiu ser particularmente importante proteger dos escândalos conhecidos aqueles que não adulteram os princípios da fé, que praticam com desvelo, sem desvios que maculem a sua missão de anunciadores, e seguidores, do Evangelho.

A Cimeira do Vaticano permitiu reunir em Roma a cúpula dos mais altos dignatários da hierarquia da Igreja Católica. Aí, de viva voz, ouviram testemunhos de comportamentos desviantes, profundamente pecaminosos, à luz da doutrina da Igreja, e até criminosos, à luz da justiça dos homens. O Papa quis ouvir e fazer ouvir as vítimas de abusos sexuais e deixou claro que a essência do que há a corrigir, discutido e aprovado na Cimeira de Roma, seja assumido e posto em prática com o regresso às origens, isto é à genuína interpretação do Evangelho.

Os testemunhos das vítimas perante tantos dignatários reunidos na Cimeira, mas sobretudo do Papa, são arrepiantes e hão de ter, exige-se que tenham, o efeito profundamente marcante que o Santo Padre advoga. O Papa Francisco, para além de tantos exemplos que tem dado durante o seu pontificado, assumiu, com coragem, a luta contra a chaga do mundo subterrâneo que, a não ser tomado outro caminho, o da Verdade, abalaria profundamente os alicerces de uma Igreja milenar.

Os tempos são outros e as práticas medievais de uns quantos, ainda que suavizados e escondidos como lhes convém, continuaram no tempo adaptando-se e, sobretudo, negando os valores e os princípios da religião que quiseram abraçar: defender os mais pobres, os doentes, os humildes de coração. Vários membros da Igreja cederam ao poder material e aos vícios que lhe são comuns. Dos relatos ouvidos na Cimeira de Roma comove-nos a dor de quantos sofreram abusos, de quantos foram indevidamente controlados na sua vida íntima, na mágoa generalizada devida a práticas que consomem a alegria de viver, retirada por quem não teve quaisquer escrúpulos de molestar aqueles que era imperativo cuidar e proteger.

Permitam-me terminar citando o Papa Francisco: «Com vergonha e arrependimento, como comunidade clerical, assumimos que não soubemos estar onde deveríamos estar, que não agimos a tempo para reconhecer a dimensão e gravidade do dano que estava a ser causado em tantas vidas. Negligenciámos e abandonámos os pequenos.».

António Magalhães é licenciado em História pela Universidade do Porto, foi deputado da Assembleia da República e vereador da Câmara de Guimarães, de 1976 a 1990,  foi Presidente da Câmara de Guimarães, de 1990 a 2013, e Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Guimarães, de 2013 a 2017. Atualmente é presidente do Conselho de Curadores do Instituto Politécnico do Cávado e Ave, com sede em Barcelos.