Mãe estás feliz?

ReinoDiverssao_duascaras

A minha Pequena guru fez ontem 3 anos. 3 anos!? Sim, passaram 3 anos desde o dia em renasci pela primeira vez. E o desafio começou logo aí. No dia do seu nascimento e do meu renascimento enquanto pessoa. Tudo no trabalho de parto fazia prever a aventura que se adivinhava: foi um trabalho parto muito longo, muito sofrido e que culminou num parto que não era de todo o que eu pretendia. Depois seguiram-se as horas de solidão, as noites em branco, até sair do hospital.

Mas quem disse que ia ser fácil? Chama-se trabalho de parto não é? É suposto haver um “trabalho” a fazer. A Parentalidade também se pode equiparar a um trabalho, porque de facto, o “trabalho” de parto é insignificante perante o que se avizinha.

Hoje percebo, tu começaste logo a ensinar-me que tudo tem o seu tempo, o seu ritmo. Como quando queremos que te despaches de manhã ou quando te vou buscar à escola, porque Nós estamos atrasados.

Que por muito que eu queira, as coisas não vão sempre acontecer exactamente como eu desejo ou planeio. Como quando escolhes uma roupa que não combina com nada, e queres usar sandálias com meias de inverno, por exemplo.

Que o que vale mesmo a pena, por vezes é doloroso. Que por vezes cais, te magoas, ficas frustrada com algo e eu percebo que é mesmo muito doloroso para ti, mas na realidade não posso (nem quero) livrar-te desse sofrimento. Vais precisar dele para enfrentar a vida de coração aberto. Vais precisar da aprendizagem que advém da dor quando alguém se impuser, te maltratar, te desrespeitar e aí vais saber que és capaz de ultrapassar todos os obstáculos e barreiras que outros ou tu própria te coloques. E que eu e o papá estaremos sempre aqui para o que precisares. Como quando o papá ia ser expulso da sala de partos por não querer que eu sofresse violência obstétrica.

Chegadas a casa, finalmente, tudo seria óptimo. Mas havia um barulhinho de fundo sempre presente: uma laringomalácia. Por vezes era assustador, por vezes ficava toda a gente em nosso redor a olhar para ti. Não podias mamar deitada, tinha de ser quase na vertical. E passou ainda não tinhas um ano. Mas há sempre um barulhinho de fundo: há sempre alguém que não concorda, que opina, que faz cara torta, que comenta as minhas intenções enquanto mãe, a nossa relação, a forma como comunicamos, os valores que te tento transmitir e a forma como o faço.

Todos os dias me ensinas, me realinhas, me relembras, que Tu és como eu. Que tudo o que tu sentes é tão importante como o que eu sinto. Que deves ser amada, respeitada integralmente. Que és responsável e tens responsabilidade sobre os teus comportamentos e escolhas, e que estas têm sempre consequências para ti e para os outros. Mas és tu que escolhes, e vais percebendo o que te serve melhor.

E eu, eu limito-me a receber os teus ensinamentos diários, o teu amor incondicional, que tanto tento reproduzir diariamente, mas às vezes transmito-o de forma condicional, como quando acho que não comeste o suficiente ou que já é muito tarde para ires para a cama.

E a ficar perdida de riso quando te sais com expressões à Alice, riso esse que muitas vezes eu e o papá não contemos, e desatamos os 3 a rir. A minha preferida é: Estás feliz mamã? E é a minha preferida não só pela expressão facial com que a fazes, mas porque me faz reflectir sempre. Nem sempre a resposta é positiva. Mas estou sempre muito feliz por me teres escolhido para tua mãe, minha pequena guru.

Sónia Lopes, 35 anos, é Psicóloga Clínica, Hipnoterapeuta, Coach e facilitadora de Parentalidade Consciente. Fundadora do SeMente – Centro de Desenvolvimento Pessoal, sempre se dedicou ao desenvolvimento pessoal (seu e dos outros) e hoje abraça a mais desafiante profissão de todas: ser mãe. Irá partilhar connosco a sua visão acerca da Parentalidade.