A barbárie na Venezuela

De quando em vez, infelizmente com assustadora frequência, rebenta, aqui ou ali, um problema de dimensão mundial de contornos tão aberrantes, ainda que aparentemente longínquo, que justifica que nos debrucemos sobre o mesmo.

Recentemente é a Venezuela que preenche noticiários televisivos e páginas da imprensa mundial, face à proporção da tragédia que se abateu sobre a larga maioria dos cidadãos daquele país da América latina. A sua população, que inclui uma importante comunidade luso-descendente, é vítima dos insanos que governam o país e da política geoestratégica das grandes potências. Estas, ávidas das riquezas naturais que a Venezuela possui, manipulam os seus líderes, criando a desarticulação da estrutura democrática a que um país tem direito, ignorando de forma ignóbil o atroz sofrimento que infligem à sua gente.

Esta desprezível ganância dos potentados bélicos que instabilizam o mundo, direta ou indiretamente, sabemo-lo bem, não é de hoje. Foi de ontem e surgirá sempre que os seus dominantes interesses de poder e gula estejam em jogo em qualquer espaço planetário. Cuidam dos seus vorazes apetites hegemónicos, indiferentes a tudo o mais. Apesar dos incríveis avanços científicos e tecnológicos que a permanente curiosidade e busca do saber e da descoberta da humanidade permitiram, a verdade é que sob o ponto de vista ético e emocional o ser humano pouco mudou. Ontem como hoje é capaz das mais abjetas atrocidades.

Sei que não trago nada de novo para o conhecimento do caos venezuelano, já que é ele que fixa sobre si os holofotes do mundo dos nossos dias, ainda que situações similares castiguem as populações desprotegidas de vários continentes. Apesar de tudo, as vozes de muitos em defesa de uma causa justa têm sempre um efeito de alerta a favor dos cidadãos indefesos, submetidos às sevícias de tiranos de ocasião. Tem também o condão de despertar as melhores consciências para tamanhas atrocidades.

Na Venezuela, apesar da situação tão dramática que grande parte do seu povo já suporta, temo que o pior possa ainda acontecer. O papel de várias instituições internacionais e das individualidades e pessoas mais informadas e sensíveis a comportamentos tão desumanos hão de influenciar, deseja-se, os comportamentos dos mais poderosos esbirros e minimizar, mesmo travar, a sua miserável conduta.

Por detrás de políticas tão desprezíveis estão dirigentes sem dimensão que os recomende para a governação de um país que juram servir. Têm a proteção e o conluio de ditadores regionais ou internacionais dominados pela desmedida ânsia de acumulação de riquezas e de poder, submetendo uma população que vive com tão pouco a um sofrimento inaudito, à privação da liberdade e da democracia, à negação de uma vida de bem-estar e de paz.

O clamor de quantos combatem estes desvarios humanos, desde a ONU ao Papa Francisco, não têm chegado para travar o perigo e a mais cruel desumanidade que tantos indefesos sofrem. A imposição da mais atroz dor povoa as nossas mentes com o sobressalto do que possa vir a acontecer noutras paragens.

A espécie humana viveu, ao longo da História, acontecimentos similares. E, apesar do que a História nos conta, há milhões de inocentes, em todo o mundo, que vivem no mais lancinante desespero. Antes como agora seres humanos desprotegidos foram e são espezinhados e linchados pela mais cruel desumanidade. Viveram e vivem privados de paz, de liberdade, de sonhos e de esperança, vítimas inocentes de insanos líderes que encerram em si o que de mais negro e tenebroso o ser humano é capaz. Sente-se uma dor profunda, quiçá uma tristeza coletiva, quando tragédias, como a que sofrem os venezuelanos, nos recordam o que de mais sinistro tem o passado do ser humano. Sempre que pérfidos interesses e sentimentos tomaram e tomam conta de uns quantos assassinos que, de uma forma ou de outra, alcançaram um poder destrutivo de que abusaram e abusam até ao limite inimaginável, para transformarem espaços de liberdade em holocaustos de horror, estremece-se de terror perante a ausência de humanismo, de respeito pela vida humana.

Parafraseando Camilo Castelo Branco, perante tamanhas atrocidades apetece perguntar ao Criador se está satisfeito com a sua obra.

António Magalhães é licenciado em História pela Universidade do Porto, foi deputado da Assembleia da República e vereador da Câmara de Guimarães, de 1976 a 1990,  foi Presidente da Câmara de Guimarães, de 1990 a 2013, e Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Guimarães, de 2013 a 2017. Atualmente é presidente do Conselho de Curadores do Instituto Politécnico do Cávado e Ave, com sede em Barcelos.