Duas boas notícias e um pouco de “Húmus”

Durante o mês que passou fui surpreendido por duas boas notícias.

A primeira está relacionada com a decisão da Câmara Muncipal de Guimarães em passar a intervir directamente na fiscalização das descargas ilegais que poluem o rio Ave e os seus afluentes. A medida poderá ser decisiva para acabar com o sentimento de impunidade daqueles que por hábito poluem o rio Ave e que há muito estão identificados…Contudo, com o devido respeito que a Câmara Municipal me merece, vou esperar para ver o que acontece. Como em tempos referi a Câmara tem um plano para despoluir o rio Ave que data de 2015. Portanto é legítimo ter algumas dúvidas sobre a capacidade da autarquia para executar esta tarefa que, diga-se desde já, não é nada fácil.

A segunda boa notícia prende-se com a mudança da Feira Medieval para fora do centro do “Centro Histórico” e das artérias vizinhas. Como tem vindo a ser referido por diversas pessoas o “Centro Histórico”, na área que abrange as praças da Oliveira e de Santiago e ruas adjacentes, tem sofrido uma enorme pressão. Poucos são os eventos que ocorrem fora daquela área. E muitos são os riscos associados a esses eventos. Desde riscos relativos à conservação do próprio património, até à saturação dos moradores daquelas zonas (e a sua subsequente desertificação), passando pelo próprio desinteresse de certos turistas que procuram Guimarães mais pelo seu património do que por festas e eventos que são praticamente iguais em todo o lado. Fica portanto a sensação que fazer da “festa” o motor daquela área do “Centro Histórico” foi uma fórmula que falhou. E quando assim é apenas temos que saudar a coragem de quem percebeu que uma mudança era necessária e, sem criar uma verdadeira ruptura (que poria em causa o investimento feito no passado), soube escolher o caminho para uma alternativa viável.

Na semana passada decorreu em Guimarães o festival literário “Húmus” em homenagem a Raul Brandão. Bem divulgado e organizado o festival literário foi um sucesso. Infelizmente, por motivos pessoais e profissionais, não pude estar presente em nenhuma das sessões do evento que, segundo soube, foram bastante concorridas. É precisamente na minha qualidade de profissional (livreiro) que faço uma reflexão que, mais do que uma crítica, é um lamento. Em conversa com vários colegas percebi que as livrarias da cidade não foram envolvidas no evento e que, para além disso, ao que parece, os convidados, assistência e demais envolvidos no festival não visitaram nenhuma das livrarias de Guimarães. É legítimo fazer uma crítica à organização (que é importada) por não se importar com as livrarias de Guimarães. Mas mais importante e interessante será fazer uma reflexão sobre o futuro e o papel das livrarias tradicionais e independentes (que tanta falta fazem às cidades) numa altura em que escritores, críticos, investigadores e intelectuais deixaram pura e simplesmente de as frequentar….

Francisco Brito (Guimarães, 1983). Licenciado em História pela Universidade do Minho. Investigador do CITCEM (com interesse em história política, social e militar). Livreiro alfarrabista.