As atuais fragilidades da Europa

Praticamente tudo o que se passa nos países da União Europeia tem para nós uma significativa importância. A nossa dependência de Bruxelas marca o nosso dia a dia e está presente em todas as decisões de fundo que atingem a vida de cada um de nós.

Abordemos, então, sinteticamente, os problemas que, atualmente, merecem a maior preocupação da nossa parte, relativamente à Europa.

  • O BREXIT

A convulsão política, e também social, que o BREXIT trouxe à Europa e particularmente ao Reino Unido promete durar, com perturbações de toda a ordem, sobretudo em aspetos basilares do quotidiano europeu. Só se entende esta medida por parte do governo de Sua Majestade porque uma franja da sociedade britânica ainda sonha com o seu passado imperial. A hegemonia, ou hegemonias, das nações evoluíram com o tempo e com inovações de toda a ordem que demonstraram, agora, quão antiquado é o pensamento e posicionamento dos governantes do Reino Unido. Fragilizaram a Europa, não têm soluções para a alternativa que quiseram construir e o “espetáculo” que têm dado ao mundo nas últimas semanas é disso prova clara. O prestígio da democracia britânica vai-se esfumando e, mais do que isso, abalou a coesão europeia, já de si tão periclitante. A Europa perante esta e outras fragilidades que vem revelando deixa de ter uma voz preponderante no concerto das nações, tão caótica e fragmentada se apresenta. Ver se à se os britânicos são capazes de tomar uma decisão que os retire do apuro político que eles próprios criaram. A sua decisão terá repercussões de índole vária que menorizaram por egoísmo ou por falta de realismo político.

 

  • A Espanha

O nosso país vizinho vive uma convulsão política que já se adivinhava. As perturbações ligadas à corrupção que atingiram o governo, e a sociedade espanhola, com a liderança de Rajoy, permitiram que surgisse uma governação alternativa, agora conduzida por Pedro Sanchez. Todavia, tão instável, por partidariamente heterogénea que, adivinhava-se, cairia ao primeiro abanão político, como, aliás, veio a acontecer. Para além da falta de coesão política que os nossos vizinhos vivem sobejam-lhe no seu seio, problemas de difícil resolução, que permanecerão para quem vier a ganhar as próximas eleições, marcadas já para o próximo dia 28. O avanço da extrema-direita é real, o que perturba a sociedade espanhola em geral e, até, os tradicionais partidos de direita. Por outro lado, os julgamentos judiciais, que têm um conteúdo político, de vários líderes catalães e a contumaz exigência da autodeterminação destes constituem um tremendo desafio a quem vier a presidir aos destinos de Espanha. O próximo governo terá de se atrever a uma negociação inteligente que convença os catalães, superando reivindicações legítimas, mas que afaste a pretensão independentista. Se, ao contrário, der provas de autismo político sombrios acontecimentos mancharão os equilíbrios sempre necessários a uma gestão política equilibrada que permita a paz social que, por sua vez, traz consigo políticas de bem-estar dos cidadãos.

 

  • A França

 

A França elegeu o presidente em funções por uma maioria esmagadora. Macron, inteligente e propenso a dar um sério contributo à Europa, assumiu o papel de alguns dos seus antecessores e, em diálogo com Merkel, como que revitalizou o eixo Paris-Berlim de outros tempos. O futuro, porém, não se revelou tão promissor como se imaginara. Ao perder peso político no seu país, a Sra. Merkel deixou a Europa sem uma liderança forte. Macron, para além da fragilidade da principal arquiteta da sustentabilidade da coesão europeia, viu-se a contas com a revolta popular dos “coletes amarelos”, que relevaram a sua inexperiência política, levando-o a cometer erros que abalaram a sua credibilidade. As cedências simplistas de um governante ao poder da rua nunca auguram nada de bom. Macron revelou esta falta de traquejo político, que tem vindo a tentar corrigir, mas que deixou marcas indeléveis perante os seus pares da União Europeia. Esta fragilidade a par da perda de prestígio de Merkel, que aguarda apenas o fim do seu mandato, afastaram ambos da ribalta política que, apesar de tudo, levam o sinal mais da coesão possível desta União Europeia.

 

  • A Itália

 

É particularmente interessante observar-se o que se passa na política italiana. A fragmentação que a Europa vinha revelando, por este ou aquele acontecimento, com maior ou menor conteúdo político, sempre foi ultrapassada pela União sob a liderança da Sra. Merkel.- A dimensão das “rebeldias” e fragilidades de alguns países, pressionados por outros mais poderosos, tiveram sempre soluções, complexas por certo, tantas vezes injustas, mas mais ou menos conseguidas. A Itália, um dos fundadores da União, adotou outro comportamento e assumiu com arrogância as suas divergências, respondendo nalguns casos com posições extremas que, de certa forma, chocaram a União Europeia. Quando há uns anos os vários países da União tiveram que lidar com Berlusconi confrontaram-se com o “folclore” político com que ele atuava em muitas das suas reuniões. Assumiu uma conduta extravagante dentro e fora dos fóruns políticos que, nalguns casos, se tornaram anedóticos. O atual governo, particularmente pela voz de Salvini, afronta algumas das imposições europeias com as quais discorda, mas que constam dos tratados que os seus antecessores assinaram. Este comportamento, com a relevância que a Itália tem, por direito próprio, nas reuniões da União fragiliza ainda mais uma coesão europeia já em agonia política que em nada beneficiará o nosso futuro.

Aguarda-se com expectativa as novidades que as próximas eleições europeias nos trarão. Talvez tenhamos sérias surpresas indiciadoras de um outro qualquer rumo para a União Europeia e para todos nós. Já no próximo mês se saberá..

António Magalhães é licenciado em História pela Universidade do Porto, foi deputado da Assembleia da República e vereador da Câmara de Guimarães, de 1976 a 1990,  foi Presidente da Câmara de Guimarães, de 1990 a 2013, e Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Guimarães, de 2013 a 2017. Atualmente é presidente do Conselho de Curadores do Instituto Politécnico do Cávado e Ave, com sede em Barcelos.