DOS TRANSPORTES PÚBLICOS

Tem-me agradado ler os textos de Luís Soares, Presidente do PS-Guimarães. Não é ironia. Tem-me surpreendido neles sentir-se a busca por uma certa autonomia e até, devo dizê-lo, neles se notar alguma coragem. Aprecio isso.

E para se perceber melhor este meu humilde escrito, convido os leitores a, primeiro, lerem a crónica de Luís Soares , desta semana, aqui neste mesmo espaço.

Nesse texto, Luís Soares desfia acerca de como, em 2013, ficou, como escreveu, “sozinho na defesa da visão utilitarista dos transportes públicos”.

Não Luís! Não estava sozinho!

O PSD, o CDS e a CDU estiveram consigo! Estivemos sempre ali, ao seu lado!

Não o abandonamos e – nós sim! – lutamos arduamente por que terminasse a visão passadista de “utilizador-pagador”, em desuso mas vigente há décadas na Câmara de Guimarães. Lutamos por si e por muitos vimaranenses que sofriam há anos com aquilo a que o Luís se refere como “a ideia dominante de que «Guimarães se deveria orgulhar porque a concessão vigente dos transportes públicos desonerava o Orçamento Municipal»” e de que, pelos vistos, como nós, também discordava profundamente.

No mandato anterior, várias e diversas vezes, em inúmeras intervenções, tanto os vereadores da coligação Juntos por Guimarães (particularmente António Monteiro de Castro) como o vereador da CDU, José Manuel Torcato Ribeiro, intervieram sobre o tema dos transportes.

Defendendo que a Câmara investisse nos transportes públicos.

Defendendo que a afetação do orçamento municipal nos transportes públicos não era despesa pública mas promoção de coesão territorial.

Defendendo em concreto, no caso da coligação JpG, a imposição de regras na concessão suportando a Câmara as carreiras que não fossem lucrativas sendo o Município a determinar os traçados que importava a Guimarães que se fizessem. No caso da CDU que fossem municipalizados os transportes públicos, tendo em vista idêntico objetivo.

Foi pena que, apesar de tanta democracia interna e diferença saudável de opiniões que diz existir no PS, não o tivéssemos visto nem ouvido a defender essa sua visão alternativa nos órgãos onde teve assento durante todo o mandato. Deve ter sido uma violência!

Foi pena porque, nós, os que defendemos esta visão utilitarista dos transportes públicos (plural que naturalmente o inclui), veríamos a nossa batalha muito reforçada com um reforço de peso como o Luís.

Aliás, isto foi de tal forma assim que, como estou certo se recorda, foi este o tema central da campanha eleitoral de 2017. Todos os debates, televisivos ou radiofónicos, foram marcados por este tema. Tal era a diferença de pontos de vista entre poder e oposição.

Sendo que o candidato que o Luís apoiou esteve um mandato inteiro no poder sem o ouvir. Precisamente por isso este foi o tema da campanha. Por se tratar de uma área onde em Guimarães se fez zero.

(Intervalo para um momento de imodéstia):

Até me recordo de, na conferência de imprensa em que apresentei e defendi esta visão para os transportes públicos em Guimarães, ter quantificado a despesa adicional que estimava ser necessário o Município suportar: 3 milhões de euros.

Ora, na apresentação do “Plano para a exploração do serviço público de transporte rodoviário de passageiros no concelho de Guimarães” (até custa ler sem inspirar), o Prof. Álvaro Costa (conceituado técnico encarregado de desenvolver o estudo para a Câmara) quantificou a despesa em 2,5 milhões de euros. Acrescentando contudo estimar atingir os 3 milhões quando as linhas estiverem todas em funcionamento.

Que tal?… Até sei fazer umas contas 😉 ….

Diz-nos ainda Luís Soares que “Desse jantar até hoje mudaram os protagonistas e com eles mudaram as ideias e as políticas” como que procurando com essa frase dizer que mudança de protagonistas explica a mudança de políticas.

Mas, algo não está bem nesse raciocínio…🤔

É que de Out-2013 até hoje o Presidente de Câmara foi sempre o mesmo!

Até acredito que o Luís não se recorde (até porque não estava lá) mas em reunião de Câmara assisti inúmeras vezes – tantas quantas as intervenções que a coligação JpG e a CDU faziam – o então e atual Presidente de Câmara a defender árdua e convictamente a visão do “utilizador-pagador”. Era com cada argumento que até a si o convencia….

(sim porque, ninguém acredita que era o vereador de pelouro, Amadeu Portilha, que impunha um sistema com que Domingos Bragança não concordava, pois não?)

Aliás, estou convicto que o Luís também percebe isto. Ou não teria escrito que esse tal jantar do Oriental “foi embrião do extraordinário momento político que vivemos hoje, consolidando a reflexão e consciencialização sobre a necessidade de adoção de políticas públicas na área da mobilidade e em particular dos transportes coletivos de passageiros em Guimarães.” Aqui manifestando claramente que havia então um conjunto de dirigentes e autarcas socialistas, pessoas que considera terem uma visão moderna e atualizada da gestão pública, que já há tinham visto isto mas que, com uma paciência digna do próprio Jó, esperaram pela altura em que – finalmente! – quem nos governa visse o que já há tanto tempo viam.

É certo que, em 2013, o Luís era apenas Presidente da JS e hoje já não….

E de então para cá “nós” acabamos por vir a ter mais força e conseguir fazer vingar a “nossa” visão. A sua, a minha, a de Monteiro de Castro e a de Torcato Ribeiro. Como escreveu e bem “quando se representa a voz de uma maioria nunca estamos sozinhos”.

Custou mas conseguimos!!

Apesar de, verdadeiramente, nem todos termos por isso lutado…

Por isso, nesta crónica que se está a converter mais num revivalismo das cartas de Camilo a Eça, vou terminar com uma citação sua: “A realidade acaba por se impor”.

Não diria melhor.

André Coelho Lima é advogado e vereador do PSD eleito pela Coligação Juntos por Guimarães. Integra a comissão política nacional do PSD.