A toxicidade do partido

Esta semana, a Mariana Mortágua esteve em Guimarães, na ASMAV, para discutir a condição de mulher na política. Considerando a iniciativa de grande mérito, uma vez que defendo que as mulheres devem ter um papel mais ativo, decidi não participar numa discussão para a qual teria um contributo eventualmente redutor pela minha experiência. A verdade é que a minha experiência política, ou mais concretamente a minha saída da vida partidária, não se deve a ser mulher. Ou será?

Na noite de 24 de abril de 1989 apresentei-me na sede do partido que estava preparada para a comemoração do 25 de abril.  Seguiram-se vários episódios que recordo como património da minha memória. Nessa vida, também com alguns bailaricos, acompanhei num pezinho de dança, como todos os outros, pelo menos um então futuro Presidente da República e diversos eminentes políticos. De forma mais formal, organizaram-se plenários onde se discutiam estratégias e planos de desenvolvimento urbanísticos, sociais, económicos e culturais, assim como programas e campanhas eleitorais.

A existência na altura de um grupo de jovens apelidado de “minoria” atraiu-me, não só pelo seu brilhantismo, mas também pelas oportunidades imperdíveis de socialização. E é um facto que, nessa altura, um grupo reduzido de mulheres já frequentava as esplanadas do centro histórico em tertúlias noturnas e não só.  Com essa opção ficou marcada a distância com a tendência maioritária do poder, isto porque, uma vez a votos, há quem perde e há quem ganha.

Durante esse percurso, sucederam-se participações em congressos nacionais e distritais, lugares de deputada municipal, lugares na direção da concelhia, organizações de listas, algumas dissidentes. Enfim, como se viu, nada de relevante. Ao cabo de 25 anos decidi abandonar a militância partidária, na verdade sem ter colado um único cartaz. Ainda fui mandatária financeira distrital da candidatura do Manuel Alegre à presidência da República, prova que não é preciso partido político para organizar uma campanha eleitoral.

Perco pouco tempo, considerando os largos anos de militância, para pensar sobre as razões que me levaram a por um ponto final nessa vida. A relação foi-se apagando, sem conflitos. A razão não esteve no género, mesmo com a consciência de que nos primeiros anos esperavam-se que as mulheres fossem meros “jarrões”. Por outro lado, as poucas mulheres na política da altura assumiam, elas próprias, a responsabilidade da censura dos comportamentos que pensavam menos adequados ao aporte feminino. Algumas chegavam a usar a diferenciação de género como vantagem. Ainda é verdade que muito da discussão política é feita em bares e restaurantes, a horas avançadas que certos setores podem entender como pouco convenientes para a frequência de mulheres. Com tudo isso, podia eu.

A política é uma atividade nobre e essencial para a organização da sociedade. Ao político cabe a responsabilidade de fomentar a decisão. Antes da decisão, cabe-lhe a dura tarefa da negociação. E os partidos são essenciais para a organização política da democracia.

Aos governantes, cabes-lhes aplicar a decisão conciliando os diversos interesses. Também lhes caberia a qualidade da visão e da preparação do futuro. Se considerarmos a necessidade que a sociedade portuguesa tem de se aproximar dos países mais desenvolvidos da Europa, esperaríamos que os políticos fomentassem a transformação da sociedade. Foi aqui que, ingenuamente, me enganei.

O partido não transformava a sociedade. O partido era o reflexo mais imediato da sociedade, naturalmente. O pragmatismo determinava a decisão, o discurso e a agenda política, em geral. O partido acomodava-se às limitações da sociedade e perpetuava essas mesmas limitações. A isto também se pode chamar eleitoralismo, ou falta de coragem, que se traduz em factos mais ou menos relevantes para os desígnios do país. Pensemos, por exemplo, na hesitação em retirar o trânsito do centro histórico ou a concessão fácil de subsídios, acompanhada da ausência, oportuna, de vontade política para o combate à corrupção.

Pertencer a um partido obriga, ainda, a lealdade que, levada ao extremo, pode obrigar a desculpar e proteger os pares em determinadas circunstâncias, contrariando valores pessoais.

Não obstante, individualmente, os atores são excecionais e, de certa forma, são vítimas da toxicidade do partido. Com algum treino, seguem em frente.

A rede de relações de proximidade, familiar ou não, e de dependência, que se tem vindo a revelar e que põe em causa a transparência da governação, é a manifestação da fragilidade, falta de qualidade e, certamente, falta de ética dos agentes políticos que cerram fileiras para se escudarem nos limites do partido.

Com alguma sorte, a mudança viria da sociedade esclarecida.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.