As eleições e as pré campanhas eleitorais

Os portugueses estão a uma curta distância temporal de vários atos eleitorais. Esta proximidade estimula o “engenho” de quantos anseiam captar o eleitorado para as causas que cada partido político propõe como as mais estimulantes e acertadas para o futuro dos concidadãos.

Nas democracias ocidentais, ainda que com nuances específicas que variam de país para país, os argumentos e os modos para cativar o eleitorado evoluíram muito, mas continuam a ser similares entre si nos métodos inovadores de que se dispõe, hoje. Todavia, os temas em debate e a potenciar, como se compreende, são condicionados pelas especificidades de cada um. O objetivo é convencer os eleitores a favor da doutrina partidária e das propostas que animam a verbe dos candidatos. Para os mais atentos é fácil adivinhar os argumentos a que lançam mão em defesa das teses que defendem. São os que, em cada país ou região, estão na ordem do dia e que mais preocupam e atraem a atenção pública. Apesar dos atos eleitorais se repetirem com frequência, o refinamento das técnicas de sedução do eleitor foram-se aprimorando a vários níveis. Todos reconhecem que o avanço das novas tecnologias são, nos nossos dias e para os fins em causa, uma ferramenta fundamental e particularmente incisiva. Os exemplos recentes das eleições nos Estados Unidos e no Brasil são disso claro testemunho.

Perante o ruidoso frenesim da pré campanha a que se assiste já ressalta o argumentário falacioso, a demagogia que é regra ter aplicação substantiva e que vai em crescendo, qual atleta de fundo cujo esforço se redobra com a meta à vista. Resta a dúvida, ou mesmo a certeza do cansaço psicológico a que tais estratégias conduzem e, daí, o número crescente de abstencionistas.

O esclarecimento capaz, rigoroso, abrangente a que os cidadãos têm direito, os temas primordiais e tantas vezes complexos que urge abordar numa linguagem clara e acessível ficam fora do debate, exatamente no período mais propício ao esclarecimento de todos. A singular e preocupante convulsão em que o mundo está mergulhado a todos diz respeito. Os problemas mundiais, à nossa dimensão, são também os nossos problemas e impõem-nos que atuemos em conformidade com vista à sua resolução e combate, nomeadamente na luta contra as calamidades causadas pela, nem sempre, subtil ganância e opressão dos poderosos.

A estabilidade social que o bem estar proporciona está em sérios riscos em múltiplos pontos do globo, nomeadamente na Europa, como se sabe, e devia merecer um debate claro e esclarecedor. O futuro da União Europeia deveria estar no cerne das mensagens e das preocupações dos candidatos às próximas eleições europeias. Lamentavelmente, a fragmentação da União e os problemas de vária ordem que fermentam no seu seio estão ausentes das propostas e dos debates, que se ficam por questões menores e marginais.

As recentes notícias sobre os compromissos do nosso serviço da dívida a curto prazo são o bom exemplo de como se fica pela rama das coisas em vez de uma informação clara e rigorosa do que tal implica e implicará para Portugal e para os portugueses. De acordo com o que nos dizem especialistas na matéria, até 2021, as responsabilidades contraídas e a serem pagas por Portugal rondam os noventa e dois mil milhões de Euros, uma das maiores dívidas do mundo desenvolvido. Perante números tão assustadores urge perguntar e, sobretudo obter respostas sérias e diretas daqueles que, legitimamente, aspiram a governar o país e a Europa. Por que se promete tudo a todos? Por que se resiste ao são esclarecimento dos cidadãos, bem maior da democracia? Por que se envereda pela verborreia estéril e não se aposta no debate dos temas difíceis e exigentes, sem dúvida, mas que requerem substantiva informação e esclarecimento? Como não comungamos da tese daqueles que advogam que as dívidas são para se gerir e não para pagar, gostaríamos de ver e ouvir os protagonistas a, durante o período de decisões fulcrais como são os atos eleitorais, apresentar argumentos, propostas, políticas e medidas sérias e concretas para os problemas que nos tocam a todos: desde a dívida de Portugal à fragmentação da União Europeia, das alterações climáticas à migração… Assim, dariam um sinal claro de maturidade democrática!…

António Magalhães é licenciado em História pela Universidade do Porto, foi deputado da Assembleia da República e vereador da Câmara de Guimarães, de 1976 a 1990,  foi Presidente da Câmara de Guimarães, de 1990 a 2013, e Presidente da Mesa da Assembleia Municipal de Guimarães, de 2013 a 2017. Atualmente é presidente do Conselho de Curadores do Instituto Politécnico do Cávado e Ave, com sede em Barcelos.