Perfeitamente Imperfeita

Tod@s nos já passámos por momentos bons e outros menos bons na nossa vida, e em todos os contextos da mesma: amoroso, familiar, parental, profissional, escolar, social, espiritual, saúde, desenvolvimento pessoal… E, como em todos os relacionamentos, quando há mais pessoas envolvidas, e algo corre menos bem, temos tendência a aceder a um sentimento de “falhanço”, de culpa. Isto ocorre especialmente na Parentalidade, onde as outras pessoas que estão envolvidas, são da nossa responsabilidade. Há este lado menos bom na Parentalidade, que aflige muito os pais e que habitualmente é escondido, considerado muito negativo e sobre o qual nos sentimos muito culpados. Como se tivéssemos que ser sempre perfeit@s, sem hipótese para errar.

E se te disser que está tudo bem? Que é permitido sermos vulneráveis, sermos autêntic@s? Que é tomando consciência dos nossos maus momentos, atitudes e “culpa” que os podemos alterar se quisermos? Que é através do nosso exemplo de autenticidade e vulnerabilidade que educaremos pessoas autênticas, que defendem os seus ideais, que perseguem os seus sonhos e satisfazem as suas vontades? Que estas sim, são pessoas reais, plenas, integrais, conscientes e saudáveis?

Que ser mãe e pai é um misto de alegria, gargalhadas, bons momentos, sucessos, e de tristeza, choro, maus momentos e erros. Muitos erros que nos permitem aprender, crescer, evoluir enquanto seres humanos e enquanto pessoas que têm outras pessoas, dependentes e sem o mesmo arcaboiço intelectual e emocional, a cargo, sob sua responsabilidade.

É termos também de lidar com uma sociedade de julgamento fácil e gratuito, que busca hipocritamente a perfeição ilusória e impossível de quem nunca grita, comete erros ou toma as atitudes indevidas em determinadas situações. Por isso escondemos, fingimos ou sentimo-nos culpad@s, empolando tudo isto numa espiral de culpa e recompensas, tal como fomos habituad@s.

Por isso é que praticar parentalidade consciente é mais sobre o “desaprender” do que aprender. Desaprender muitas crenças, ideias, hábitos que fomos adquirindo ao longo da vida. Desaprender atitudes e comportamentos, que muitas vezes são transgeracionais. É um processo de autoconhecimento, onde percepcionamos aquilo que nos serve e queremos como pais para as nossas crianças, e aquilo que (já) não nos serve quando procuramos um relacionamento saudável baseado no amor incondicional que sentimos pelos nossos filhos.

Pais conscientes são perfeitos? Não! Ser um pai ou uma mãe consciente é praticar a aceitação, o igual valor, a autenticidade, o respeito pela integridade, a promoção da responsabilidade e do amor incondicional. E para tal podemos começar com a auto-aceitação, o auto-conhecimento. E é possível fazê-lo se encararmos a nossa vulnerabilidade e imperfeição em todos os aspectos da nossa vida. E não vejo papel mais desafiante que o de um pai ou uma mãe.

Quando nos conhecemos melhor conseguimos perceber melhor a criança, promovendo empatia e conexão. Conseguimos perceber quais são as nossas necessidades e o que precisamos de fazer para satisfazê-las, e desta forma reconhecer e satisfazer as necessidades da criança. Sabemos quais são os nossos limites e conseguimos comunicá-los de forma consciente e respeitosa. Da mesma forma, aprendemos a respeitar os limites da criança e promovemos a sua comunicação.

Ao estarmos verdadeira e conscientemente presentes na vida dos nossos filhos, respeitámo-los e aceitámo-los tal como eles são, satisfazemos as suas necessidades e amámo-los incondicionalmente. É um caminho infinito, que pode começar a qualquer momento, onde conduzimos à verdade, à autenticidade, à presença, à aceitação e ao amor incondicional. É no fundo, viajarmos até à nossa criança interior, e fazermos as pazes com ela, aceitando-a (nos) tal como ela é e devolver esse amor incondicional aos nossos filhos.

É, na verdade, sermos perfeitos na nossa imperfeição e perceber que a Parentalidade não é mais do que uma relação que temos com alguém que amamos profundamente. E se nos relacionamentos com outras pessoas acredito no respeito, na aceitação, na valorização, no reconhecimento, no apoio, no amor, na comunicação, no companheirismo, na entreajuda, na lealdade, na satisfação, no crescimento, na autenticidade, na intimidade, no conhecimento, na segurança, na confiança, na paciência, no carinho, na atenção, na escuta, na adaptação, na aprendizagem, na superação, na amizade, na vulnerabilidade, na possibilidade, na descoberta, na dedicação, no interesse, na abertura, na empatia, na gentileza, na compaixão (…) como posso querer outra coisa para o relacionamento mais importante da minha vida?

Sónia Lopes, 35 anos, é Psicóloga Clínica, Hipnoterapeuta, Coach e facilitadora de Parentalidade Consciente. Fundadora do SeMente – Centro de Desenvolvimento Pessoal, sempre se dedicou ao desenvolvimento pessoal (seu e dos outros) e hoje abraça a mais desafiante profissão de todas: ser mãe. Irá partilhar connosco a sua visão acerca da Parentalidade.