Eu sou político!

O título que acompanha o presente artigo é uma frase que é cada vez menos popular ou motivo de orgulho para quem a profere. Mal, na minha opinião.

A condição de político, enquanto cidadão que se preocupa e ocupa dos assuntos da polis, é uma das mais nobres condições na construção de uma sociedade.

Ser político é, por isso, empenhar-se direta ou indiretamente na construção de um modelo de sociedade em que se acredita, e na construção de Cidades, enquanto termo lato que designa os espaços que habitamos ou usufruímos.

Esta reflexão foi levada com grande eloquência aos discursos da última sessão solene do 25 de abril pelo Presidente da Assembleia Municipal, José João Torrinha, e pelo Presidente do PS Guimarães, Luís Soares.

Infelizmente, alguns dos que se ocupam desta nobre missão a “tempo inteiro” têm vindo a colocar em causa o reconhecimento público da classe e o respeito generalizado da população. Só que a amplificação generalizada, por vezes demagógica e muitas vezes autofágica que é dada a este tipo de prática, não reflete a verdadeira prevalência deste tipo de casos sobre a quantidade de cidadãos que se dedicam à causa pública.

Entre Juntas de Freguesia, Assembleias de Freguesia e Municipais, Câmaras Municipais, órgãos do Estado Central ou a simples ação política em organismos que não do Estado, são milhares aqueles que são Políticos. E os que denigrem esta condição são umas poucas dezenas.

Mais: o mesmo exercício feito ao nível dos clubes de futebol, setor bancário, setor empresarial ou outros, terá resultados no mínimo semelhantes, senão superiores. Só que o escrutínio é outro, e a amplificação incomparável. E isto resulta de uma verdade universal: os políticos são o reflexo direto da sociedade.

A Comissão da Assembleia da República que esta semana ouviu Joe Berardo, fez-me voltar a refletir sobre o assunto.

O país atravessou uma das mais graves crises económicas de que há memória. Milhares de Milhões de euros foram colocados ao serviço de erros graves cometidos em setores privados do país, e o cidadão comum responsabiliza apenas a classe política.

Se quisermos culpar a teia de interesses que tem tentáculos na classe política e que nos faz todos os dias trabalhar para pagar os erros de tão poucos, eu percebo. Mas fazer de conta de que os políticos que culpamos são joguetes nas mãos do Poder que verdadeiramente manda nos países, é inegável e poucas vezes dita.

Há toda uma classe capitalista que despreza a classe política. Que a usa, compra, vende e manipula. Que não lhe reconhece qualquer importância porque sabe que muitas vezes estão à distância de uma chamada.

Para que seja possível continuar a afirmar “Eu sou político” com orgulho, urge desconstruir esta mitificação das culpas de todos os males, e de fortalecer toda a classe com medidas muito concretas. Melhores salários para os políticos, melhor sistema de justiça e níveis de escrutínio superiores ao que a classe enfrenta para aqueles que verdadeiramente “brincam” com o país, rindo-se na cara de todos os que elegemos para nos representar.

Para dizer “Eu sou político” é necessário aliar a tudo isto um código moral e ético dos titulares de cargos políticos que não se legisla. Cumpre-se todos os dias.

“Eu sou político”, continuarei a dizer com orgulho. Esteja ou não a ocupar cargos públicos.

Paulo Lopes Silva, 31 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.