Caderno de Encargos para o Vitória

Duas caras banner copiar

Este espaço destina-se, regra geral, à análise da situação política local e, por vezes, nacional. Poucas vezes abro mão deste princípio e, quando o faço, é normalmente pelo mesmo motivo: O Vitória.

O momento que o clube mais representativo do concelho atravessa é importante para os sócios, os simpatizantes, mas, também, para o concelho. É, por esse motivo, razão suficiente para parar para refletir sobre o que vivemos e perspetivar o futuro.

A atual direção demissionária do Vitória SC chega ao fim de um ciclo de 7 anos que globalmente avalio positivamente. Quatro apuramentos europeus e duas finais de Taça de Portugal, duas finais de Supertaça e um Taça de Portugal conquistada, a primeira da história do clube, são razão mais do que suficiente para falar num dos períodos mais positivos da vida do clube.

Contudo, os tempos de grande exigência, muito por força, estou em crer, do sucesso desportivo do maior rival, levam os sócios a pedir mais. A atual direção entende que não é possível no atual quadro ter esse nível de exigência, e abre a porta a quem pense ser capaz de o fazer.

Este introito deve, para mim, colocar um ponto final na discussão sobre o passado. Não a discussão que pretenda evoluir com as lições aprendidas (sejam para não repetir erros ou para manter fórmulas de sucesso), mas a perda de tempo que foram as últimas eleições. Discutir pessoas e não projetos, alimentar divisões entre supostas elites e supostos sócios de base ou dispersar entre suspeições e acusações graves ao invés de se ser claro sobre o que se pretende para o futuro do Clube e da SAD.

Assim, é o momento dos projetos de futuro. E não havendo ainda nada em cima da mesa (apenas nomes de candidatos mais ou menos assumidos) servem as próximas linhas para deixar claro “o meu caderno de encargos” enquanto sócio que votará nas próximas eleições.

Não com caminhos apontados, porque sinto, por um lado, genuinamente que não tenho o conhecimento suficiente para apresentar um projeto com respostas às perguntas que formulo, e por outro, que não haverá respostas certas a cada uma delas. Será da coerência do projeto global que poderá sair o melhor caminho.

Uma candidatura clara e com objetivos definidos para o futuro do Vitória terá que dar resposta, desde logo, ao modelo de gestão pretendido para o Futebol Profissional. A continuidade do projeto da SAD e, no caso afirmativo, as alternativas encontradas para o modelo de financiamento desse projeto. Entrada de novos investidores, reforço dos investidores atuais e posição do Clube nessa matéria.

Para além do modelo de gestão, importa saber que projeto desportivo há para o futebol profissional. Falar de um ADN Vitória não pode ser uma mensagem vaga. Há que traçar o perfil do jogador “à Vitória”, do treinador “à Vitória” e do futebol “à Vitória” que se pretende.

Depois será obrigatório perceber que projeto há para a formação. Definição da equipa B e sub-23, estrutura de acompanhamento aos vários escalões e pretensão de progressão do jogador formado no clube até à equipa principal. Com dados concretos, se possível com nomes, benchmarking de base e eventuais alterações físicas e materiais que suportem esse projeto.

Não esquecendo que estas eleições são para o Clube e não para a SAD do futebol profissional, é determinante ter resposta às perguntas todas sobre as modalidades. Quais, com que relação com o clube, que modelo de gestão, que infraestruturas necessárias, que orçamento e com que dados suportamos o orçamento previsto.

A juntar a estas questões determinantes haverá “extras” que serão fatores de valorização das candidaturas: política de comunicação e marketing, propostas para a relação com os adeptos, postura perante as claques organizadas, entre outros.

Tudo isto de forma clara, com dados, nomes e ambição. Só com clareza, determinação e metas bem definidas, podemos decidir com conhecimento de causa de entre os candidatos que se apresentem. Afinal de contas está em causa o clube de futebol mais representativo do concelho e um grau de exigência que a paixão reconhecida por tantos, obriga.

Paulo Lopes Silva, 31 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.