Reserva de Valor, por João Pedro Pinto

Quem habitualmente acompanha esta rúbrica sabe que escrevo sobre a área da economia e inovação, onde me sinto mais confortável e com algum conhecimento que posso partilhar.  No entanto este mês abri uma exceção e propus-me escrever sobre as eleições no Vitória SC, dada a importância do tema para o futuro do clube. Tentarei de alguma forma contribuir com ideias válidas, sem desvirtuar totalmente a área que normalmente escrevo. Farei por isso, uma análise do que na minha perspetiva ajudaria o clube a passar para um outro patamar de profissionalismo do ponto de vista de estratégia e gestão, identificando alguns constrangimentos que impedem que isso aconteça. Estas são, na minha opinião, as bases para o sucesso a médio/longo prazo de uma organização (seja ela desportiva, empresarial ou outra).

Partindo destes pressupostos, existem quatro áreas que me parecem estratégicas para o clube e carecem de reestruturação: Financeira, Técnica (todos os escalões de futebol), Marketing/Comercial e Modalidades. Adicionalmente existem dois conceitos transversais e absolutamente críticos para criar uma base sólida e em última instância para o sucesso da organização: profissionalização e digitalização.

Começando por dissecar cada uma das áreas estratégicas:

Modalidades – parece-me essencial começar por definir-se qual será o “modelo de negócio” das modalidades.  Se o objetivo é ser autossustentável, o caminho é profissionalizar a estrutura e trabalhar para tal na obtenção de receitas/parcerias necessitando por isso de reestruturar totalmente, se esse não é o caminho, então é preciso que o clube/sad assuma um orçamento mínimo condigno para satisfazer pelo menos as condições básicas das modalidades que assumir, de modo a acabar de vez com situações em que o atleta paga do seu bolso as deslocações para competições.

Financeira – Aqui está na minha opinião o maior mito construído e alimentado em redor do Vitória SC atual, a obrigatoriedade de novos acionistas para tornar o clube viável financeiramente. Ora bem, dinheiro é sempre bem-vindo, penso que aí estaremos todos de acordo, no entanto o Vitória SC deve ser gerido como uma empresa (até porque o é), isto é, deve ser rentável pela sua operação. E a sua operação é comprar e vender jogadores (para além das receitas do marketing). Imagine o leitor que é empresário, acha que o objetivo da sua empresa é que enquanto sócio/acionista injete dinheiro na empresa constantemente ou pelo contrário, o seu capital social deve ser estável e a sua operação deve fazer da empresa rentável e gerar dividendos para si enquanto detentor das quotas/ações da mesma? Parece-me que estamos demasiado focados em algo que não deveria ser o foco, o acionista. Deveríamos estar preocupados sim em criar as bases para comprar melhor e vender melhor. Como em qualquer outro negócio, o objetivo é comprar por 1, adicionar valor e vender por 5. Como em qualquer outra empresa, precisamos de bons profissionais para conseguir implementar isto.

Técnica – Quando não tivemos outra opção, por falta de condições financeiras, fomos obrigados a rentabilizar a nossa formação, o modelo deu frutos desportivos e financeiros, com a conquista da Taça de Portugal e rentabilização de vários jogadores. Depois e ao contrário do que seria natural, ao invés de mantermos a política, invertemos completamente e conseguimos a “proeza” de fazer história na Liga Europa ao sermos o primeiro clube a apresentar um 11 inicial sem nenhum jogador europeu, no jogo contra o Salzburgo em Set-2017, então com “craques” a titulares como Jubal, Rincón, Celis, Vitor Garcia, etc…

Para combater esta alternância, precisamos de visão e de uma estratégia a médio/longo prazo, para tal é necessária uma estrutura profissional que seja capaz de a pensar e implementar. Serão necessários profissionais à altura de tal desafio, profissionais com experiência, preferencialmente que tenham passado por outros clubes/instituições de relevo, de modo a podermos adquirir conhecimento e as melhores práticas do setor.

Marketing/Comercial – Esta é provavelmente de todas, a área estratégica com mais caminho a trilhar e não é a menos importante, uma vez que excluindo as transações dos jogadores é a área que mais contribui para as receitas de um clube. O marketing/comercial pode-nos ajudar, entre outras coisas: a vender mais, fidelizar, comunicar (interna e externamente) e aumentar a visibilidade dos nossos parceiros. Será que estamos a fazer isto bem? Não creio. Por exemplo: Temos um departamento comercial profissional com KPI’s anuais bem definidos na captação de novo negócio, fidelização, etc para o mercado empresarial? Ao contrário de outros clubes, não. Para além dos camarotes, que tipo de outras soluções existem para vender às empresas? Temos por exemplo ideia da frequência com que o clube comunica de forma individualizada com cada associado e qual o gasto médio anual do associado A, B e C em merchandising do clube? Estas e muitas outras ideias seriam simples de colocar em prática se o clube estivesse devidamente digitalizado e que ajudariam com certeza a aumentar as receitas.

Um comentário adicional à profissionalização no clube, ao contrário de outras organizações de referência, incluindo outros clubes Portugueses, o processo de recrutamento no Vitória SC para cargos técnicos de toda a estrutura (marketing, financeiro, rh, etc) não se apoia em empresas especializadas de recrutamento nem é um processo devidamente transparente e exigente, pelo que, estes cargos servem muitas vezes para retribuir favores prestados pelas “tropas” em altura de eleições. Ou seja, não se contrata pela competência, mas sim com base noutros fatores, o que compromete desde logo a capacidade organizacional do clube.

Relativamente à digitalização do clube, estamos na era dos dados e da grande importância que estes representam na gestão para a tomada de decisões estratégicas, seja numa empresa, num clube ou até do ponto de vista pessoal. Numa altura em que a Domino’s entrega pizzas em carros autónomos (sem condutor), um associado do Vitória SC (ao dia em que escrevo este artigo) ainda nem sequer compra a quota ou um bilhete de jogo pela internet de um modo simples e intuitivo. Que sentido isto faz? Em que século vive o Vitória SC?!

Espero sinceramente que o facto de termos três listas a concorrer às eleições, promovam a competitividade de ideias entre elas e no final do processo a direção escolhida aproveite o momento para uma mudança disruptiva no clube. Da campanha eu pessoalmente desejo que, mais do que quezílias pessoais, os clichés do costume e a promessa do jogador X, Y ou Z, se debatam ideias sobre a estratégia e o modelo de gestão que se irá implementar para retomarmos o nosso lugar no panorama do futebol nacional.

João Pedro Pinto (https://www.linkedin.com/in/joaopinto1/), 32 anos, é licenciado em Ciências Económicas e Empresariais.