Bidonvilles

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Quando acabar o que tenho para fazer irei caminhar. O caminho será a marca dos meus passos, cada um à frente do outro e o último passado, com primeiro objetivo de alcançar o que o passo seguinte pisar. E na caminhada ansiar pela chegada enquanto não chegar, como aquele primeiro beijo que se delonga porque não se conhece o depois. Ser caminhante é um destino, uma devoção solitária, inevitavelmente parte do todo com determinação, ter o encargo de chegar ao fim e, lá, já com os outros, dizer ao que se vem ou ao que se quer, juntar-se inevitavelmente à humanidade que, por uma necessidade imperiosa se largou. E depois, tudo se complica. Mas como não há outra condição além da humanidade, será a última paragem, obrigatória, incontornável.

Em 1969, levada pelas mãos dos meus pais, caminhei, nem sempre, pois parte do caminho foi de autocarro, de jangada, de táxi e comboio, para França. Uma necessidade imperiosa levou-nos até Estrasburgo, cidade a dois quilómetros da Alemanha. Foi uma caminhada, mesmo que a lembrança mais viva seja a travessia de noite do rio Minho numa barcaça que obrigou os homens a seguirem pernas na água para a salvaguarda das crianças e das mulheres. Nunca se falou muito da jornada em casa. Só há pouco insisti em saber mais pormenores pela boca dos mais velhos, antes que se perca a memória. Não fomos cair num bidonville, por sorte, dos arredores de Paris. Só recentemente, li que havia caminhos percorridos a pé, pelos Pirenéus onde homens e mulheres caiam nos desfiladeiros, deixados para trás pelo grupo que nada podia fazer, ouvindo-se os gritos de morte anunciada nas quedas. Há uns anos atrás, tomei conhecimento da obra fotografica de Gerald Bloncourt que retrata os bidonvilles portugueses e cuja beleza não esconde a miséria imediata do fim da caminhada daquela gente. Mesmo assim, tivemos melhor sorte que algum dinheiro comprou. No fim da jornada, conseguiu-se regenerar a humanidade da comunidade com habitação, trabalho, educação, associação de portugueses, atividades culturais e equipa de futebol que não podia faltar. Fui emigrante. Disse-o tantas vezes quantas aquelas que me disseram que não precisava de o dizer. Continuo a dizê-lo porque o facto fez toda a diferença na minha vida, como o faz em todos aqueles que o foram ou são emigrantes. Não se apaga a caminhada, nem o conhecimento. Essa experiência que é uma marca indelével da história e da cultura do povo português não pode deixar que se olhe com indiferença o que se passa com os migrantes neste momento. A imagem do pai e da filha que não chegam ao fim do caminho porque a sorte ditou a morte lembra os portugueses que pereceram pelo caminho nos Pireneus.

No meu caso e de muitos outros, houve um regresso. Explicar a razão desse regresso neste momento seria o mesmo que confessar ao amante que o amamos quando acertamos que não haveria envolvimento amoroso. A diáspora dos anos sessenta é a prova do estado de pobreza do país nessa altura, uma realidade incómoda que não ajudou a acolher a ideia da emigração. Sempre soube que saíram os melhores, os mais empreendedores. Hoje ainda saem os melhores. Nenhum subsídio de 6.500,00 euros traz de volta quem foi rumo ao futuro mais promissor. Regressava-se ao engano, atrás da ideia romântica de um país cuja revolução recente abria caminho para uma democracia moderna e uma sociedade justa e esclarecida. O tempo passou. Já lá vão muito anos e o que temos em infraestruturas financiadas pelos fundos comunitários falta-nos em transparência que resulta em falta de oportunidades.

De par com a inércia da justiça, o país habituou-se à ausência de censura moral da corrupção e de outros delitos de favorecimentos. As autarquias não estão isentas de culpa e as últimas notícias revelam aquilo que o povo vai dizendo à boca cheia. Um país mais livre de corrupção será um país com mais recursos para todos e capaz de trazer de volta os seus emigrantes, diferentes dos anteriores, mais qualificados e, talvez, mais empreendedores dos que os demais cidadãos.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.